O título acima é a tradução literal de “Non, je n’ai rien oublié”, uma canção de Charles Aznavour, ela está no YouTube e nos encaminha mensagens que tocam os guardados de nossas memórias, algumas rememorações que o Coronavírus nos impedem, os reencontros, os abraços e o dia dos namorados.
Na canção citada, o intérprete narra estar surpreso e muito grato ao destino pelo reencontro com uma pessoa amada de seu passado, e constata que ela em nada mudou, apenas os cabelos, talvez. Apenas como detalhe, ele a encontra em Paris, e quer saber o que ela faz, se está rica, se é feliz. No andamento da canção ele afiança que foram os pais dela que impediram o seu romance, eles certamente tinham outras ambições para ela.
Como amor é o mesmo em todo mundo, independe do lugar, a letra da canção deixou muito ao longe o charme da iluminada Paris, para situar-se em um grande e velho prédio que ficava numa esquina com a rua do Depósito de Bebidas, segundo nosso jeito de identificar as ruas, um estabelecimento que abrigava uma Oficina de Consertos Mecânicos.
Nesse tempo, até o proprietário se dispunha a orientar na execução dos serviços, pois tinha uma grande demanda, razão pela qual, estava sempre contratando rapazes como aprendiz.
A residência do empresário ficava em frente sua Oficina e a sua família compunha duas bonitas mocinhas, destinatárias de zelosa e vigilante educação, cuja missão foi incumbida à esposa do empresário. Era frequente a mesma mocinha filha do patrão, comparecer na Oficina para algum recado para o pai. Nunca poderia afirmar, mas acho que desde a primeira vez que ela vira aquele jovem aprendiz do seu pai, notara nele, um olhar meio triste e carente, essas coisas que só os jovens vêem.
Depois de inúmeras visitas ao local de trabalho dele, após tantas trocas de olhares, ficou claro para eles que teriam alguns encontros, contudo, dependeria de como contornariam a severa vigilância dos pais. Então, aproveitando do fato das encomendas exigirem trabalho até fora do horário, era costume do patrão permitir que sua filha trouxesse uma garrafa de café para quem estava trabalhando até tarde. O nosso mocinho, como o pastor da “Serrana Bela”, do poema de “Camões”, ficaria até o amanhecer se preciso fosse, para esperar a linda filha do patrão trazer a garrafa de café. Naquele tempo, o doze de Junho, ainda não era o dia dos namorados, entretanto, no coração daquela mocinha pairava uma sensação de data especial, e, naquela noite ela colocou uma camiseta branca novinha, para ir a entrega do café. Porém, no retorno com a garrafa, demorou-se alguns poucos minutos, diria até segundos, sob a perspectiva dos namorados, sendo recebida pela mãe com uma certa irritação e em seguida, utilizando a semântica para suavizar, descambando para uma irracional descompostura na mocinha. Ela, não entendendo a agressividade da mãe, candidamente, perguntou-lhe o que fizera de tão grave para merecer tamanha gritaria. Incontinente, a mãe mostrou a costa da camiseta da mocinha, contendo duas mãos espalmadas, com todas as digitais pela graxa, provando que ali houve um afetuoso abraço, tão proibido naquela ocasião, como o está sendo agora.
Soube, nem me lembro por quem, que aquele moço com pretensões a genro do empresário, não fora bem aceito, mas hoje vejo como compreensível a postura daqueles pais, sempre queremos o melhor para os filhos, muito embora, as vezes também erramos.
Certamente, neste caso isso ocorreu, pois aquele mocinho de olhos tristes, porém ambiciosos, prosperou bastante, tanto na linha política e administrativa do município, como na vida profissional do Direito. Se não fosse a Canção do Charles Aznavour e o Coronavírus ter extinguido o Dia dos Namorados, não teria graça nenhuma estar lembrando tudo isso, mas como diz na letra da canção: “ com vinte anos todas nossas estações eram primaveras”.
Antonio Isidoro de Oliveira (Poli)
poli.oliveira@terra.com.br
Tinha dedicado essa cro-nica ao dia dos namorados, mas como “o Amor está no Tempo do Coronavírus”, essa data ficará para aquela que a sua leitura escolher.









