Tanque da Viúva

Nestes dias em que as notícias de mortes se tornaram apenas boletins diários, não creio que uma tenha ficado indiferente para aqueles que gostam de cinema: o passamento aos noventa e um anos de Enio Morricone, o autor da trilha sonora de “Cinema Paradiso”, um filme inesquecível e repleto de poesia e delicadeza que nos envolve na nostalgia dos tempos vividos na pureza da infância.
Não pude deter o meu pensamento de como ultrapassávamos o nosso rito de passagem de moleques a adolescentes, num lago natural numa propriedade de uma senhora viúva, daí a denominação de Tanque da Viúva. Ele tinha dois lados, o bem rasinho com areias brancas chamado de Prainha, usado pelos que estavam aprendendo nadar e o do outro lado, o Barranquinho, era o lado mais fundo e dos que já sabiam nadar. De, também, o local onde deixávamos as nossas roupas, para os mergulhos naquelas tardes após as aulas.e naturalmente, sempre às escondidas de nossas mães.
Entretanto, não era um folguedo de paz pois a molecada tinha que ficar atenta aos atormentadores de meninos aprendendo nadar, que tinham prazer em esconder as roupas dos moleques só para vê-los em seus desesperos de como voltar para casa e enfrentar as mães.
Nenhuma mãe naquele tempo autorizava os filhos irem nadar no Tanque da Viúva, muito pelo contrário, algumas iam até esperá-los exasperadas e nervosas na porteira do potreiro. Algumas não esperavam para a surra, mas a maioria só levavam pelo braço com a promessa de “você vai ver quando chegar em casa”, que era a senha do coração de mãe que a coça seria aliviada.
Foi por isso que naquele dia em que adentrava pela porteira e vi um homem bem vestido, sisudo e olhando firmemente para os lados do Tanque, que pelos meus olhos de menino logo presumi seria diferente das costumeiras vezes, era um pai que esperava os filhos que estavam nadando e valeria a pena esperar para ver o que sucederia aos garotos fujões.
Quando os dois garotos chegaram molhados e trêmulos e aquele sisudo senhor, em vez de recebe-los com umas palmadas, seriamente entregou-lhes toalhas para se enxugar, em mim naquele momento acontecera algo inconcebível. Mesmo assim, ainda tive o desplante de perguntar aquele senhor “se não ia castigar os meninos”, e obtive uma reposta que guardo até hoje: “É muito importante que os meninos aprendam a nadar”.
Não me lembro, dentre os seus irmãos, quem são aqueles dois meninos que estavam trêmulos de frio naquela ocasião, pois um deles, o mais novo se foi recentemente e os outros estão com os cabelos igualmente brancos e são meus prezados conhecidos.
Aquele senhor sisudo que recepcionou com indisfarçável carinho aqueles dois meninos, foi o mais importante Oficial de Justiça de nossa cidade, um portador de Justiça, por quem algumas notificações eram feitas em lombo de cavalo por locais inóspitos impostos pelo meio rural, por dias e com muita e sofrível demora, época que ainda eram inimagináveis as lépidas motocicletas de hoje.
Lembro-me te-lo conhecido como Seu Faeco, mas o seu nome inteiro constou do discurso do atual Desembargador Dr.Persio Martins Mancebo, que tem raízes profundas em nossa cidade, em sua posse como Juiz de Direito, onde enaltece com palavras e emoção apondo como exemplares o cuidado e dedicação no verdadeiro cumprimento da Justiça, emanados durante uma vida por aquele simples Oficial de Justiça em Capão Bonito.
Lembrei-me de um tempo, que tarde da noite, o meu amigo Flori me colocava a bordo de seu carro com os seus CDs e íamos levar para casa o nosso Grande Itamar, que vivia sempre mudando de lugar de moradia. Nessa noite, enquanto não terminava a canção do Nelson Gonçalves, íamos sendo conduzidos ao Jardim Europa, passamos pela ponte de cimento e entramos a esquerda, era uma noite de luar e o céu bem estrelado estava a iluminar os contornos ainda bem nítidos daquele tanquinho.
Sei que estou muito telúrico em minha recomendação, mas assim que o Coronavírus nos liberar, não deixem os irmãos de cabelos brancos, filhos do Seu Faéco, de fazer uma visitinha pelo lado do Jardim Europa, atravessem a ponte da entrada e entrem a esquerda e revejam que o Tanque da Viúva continua lá tão grande como o ainda está no meu coração.

Antonio Isidoro de Oliveira (Poli)
poli.oliveira@terra.com.br
Uma Pequena Grande nota de Rodapé – Seu Faéco, é o codinome do inesquecível Sr. Rafael Machado Neto.

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