Um bem amado

Dias Gomes é autor de três importantes obras que foram levadas para o Teatro, Televisão e Cinema.
No cinema, com um filme dirigido por Anselmo Duarte, “O Pagador de Promessa”, foi o único do Brasil a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Na televisão, do livro “O Berço do Herói”, tivemos a novela Roque Santeiro, e do livro “O Bem Amado”, a telenovela com o mesmo título. Ambas novelas fizeram sucesso, entretanto, a do “O Bem Amado” foi maior, talvez por expor naquele período sem eleições no País, as peripécias daquele Prefeito Populista e o seu linguajar típico, na pequena e imaginária Sucupira, no interior da Bahia.
Embora nossa cidade de Capão Bonito não fosse tão pequena como Sucupira, igualmente abrigava quase todos aqueles personagens que eram exibidos na telenovela.
Diferentemente do problema público vivido pelo cemitério de Sucupira, o de nossa cidade residia naquela rua detrás da Igreja Matriz, que ocupava todo o terreno da frente de um casarão de arquitetura Italiana, que continha janelões com grades de Ferro, que correspondia à nossa Cadeia Publica.
Era um tempo de absoluta paz e tranquilidade, tanto que começaram a rarear presos para a lotação da cadeia, o que levava os soldados preencherem o tempo na frente do prédio escondidos, fazendo pegadinhas com os transeuntes, aquelas infantilidades de amarrar um dinheiro num barbante e puxar quando se tentava apanhar.
Lembro-me que um importante Jurista de nossa cidade, rememorando seus tempos da juventude, relatou-me com muito humor a simplicidade e inocência de sua mãe, D.MALVINA, a qual foi uma mulher maravilhosa, faz parte de nossa história e é merecidamente nome de rua em nossa cidade. Na ocasião do episódio, ela era apenas a responsável pelo fornecimento de refeições aos presos e, preocupadíssima com a escassez de presos na Cadeia, incumbiu o filho de pedir a ajuda dos seus dois primos.
Desses dois, Jura, o mais novo, não era de briga e tornou-se um exímio atirador com espingarda cartucheira em codornas e perdizes em nossos campos. Era sempre requisitado para acompanhar importantes pessoas das famílias Paulistanas, que com convidados da Europa, vinham a Capão Bonito para praticar e relembrar das caças em campos.
Contam que um dos visitantes, quando viu o Jura atirar nas codornas, ficou tão impressionado como ele o fez, que acabou presenteando-o com a sua magnífica cartucheira Europeia, pois, segundo o visitante, era Jura quem merecia portar aquela arma.
O segundo primo, desde criança já esquentadinho e brigão, estava sempre na frente de qualquer confusão. No Futebol, era um eterno problema para o treinador, nunca conseguia chegar ao final do primeiro tempo, era sempre expulso por briga ou entrada violenta no adversário.
Mesmo moço, quando se tornou um bom motorista e um dos poucos que com entravam em São Paulo para entregas na Zona Cerealista Santa Rosa, ainda assim as brigas não o abandonavam, até que houve a eleição de um Prefeito Populista em nossa cidade.
O novo Prefeito, com ambições na Política Forista de nossa cidade, logo após eleito, chamou em seu Gabinete o nosso personagem e determinou: “De hoje em diante, você será o meu motorista particular e como iremos muito a São Paulo em encontros com o Governador, você usará terno e gravata. Mas, o principal é o seguinte: se eu souber que você andou brigando de novo, está DESPEDIDO!”
E no oposto do que ocorreu com o Prefeito de Sucupira na Novela, o nosso personagem foi contratado como motorista para não brigar.
Eu mesmo testemunhei, nas vezes que frequentava o Bar do Dito, que ele cumpriu a promessa ao novo mandatário. Quando o ex brigão chegava no final da tarde, vinha bem vestido com terno e gravata, trazendo sempre um saquinho de leite que o dono do bar prontamente colocava em seu famoso freezer. Enquanto isso, ele já ia participando da conversa, contava causos e fazia até piadas com ele mesmo acerca de seu apelido.
Durante décadas, nunca se soube que alguém tivesse tirado da esportiva o nosso ex-briguento, exceto uma vez em que ele surpreendentemente perdeu a briga, mas essa não valeu, ele já estava casado e tinha filhos, e todos sabemos, o que não se faz pela família.

Antonio Isidoro de Oliveira (poli)
Pequena Nota de Rodapé:
Prefeito Abílio Turco, seu motorista Hélio Boca e o Bar do Dito. Saudades.

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