Num desses sábados chuvosos de agosto, quando do café da manhã, vendo a janela da cozinha tocada por uma leve garoa, veio em minha lembrança, aquela primeira lição de Francês e da página com o desenho da figura de uma menina olhando através da janela a chuva na vidraça. Não era em nenhuma cidadezinha francesa que ocorria essa leitura, e sim, ali na rua Direita na primeira ou segunda série do Ginásio, nos anos cinquenta em Capão Bonito.
“J´aime beurre avec du pain”, assim começava aquele primeiro parágrafo daquela lição que falava de uma menina que impedida de ir a aula por causa da chuva, teria de passar o dia a pão e manteiga. Eram as primeiras palavras que conhecíamos da língua de um País, que nós nem imaginávamos onde ficava e nessa primeira lição dos tempos que ensinavam Francês, Latim e Inglês no Ginásio, encontravam a gente com as dificuldades de imaginar o que era um desjejum daquele. Não sabíamos do idioma do País, e a maioria de nós nem sabia o que seria de manhã, tomar um café com pão e manteiga. Entretanto, um simples relance num cenário, bastou para relembrar algo que estava na longínqua memória.
Há ainda, alguns de meus contemporâneos, que se lembram dos nossos primeiros professores em Capão Bonito. Eles vieram todos de fora e dedicavam todo o tempo que dispunham para preparar aquelas aulas inesquecíveis, sobretudo, o esforço que despenderam para nos levar ao conhecimento de uma língua estrangeira.
Ah! Com que saudades me lembro daquelas aulas, daquela mocinha frágil, vinda da Capital, a Professora EDA LANCIA, que enfrentava com altivez todos aqueles marmanjos, cuja maioria mantinha-se unida apenas na rebeldia de não passar de ano.
Sinto me hoje, condoído em lembrar das intervenções daqueles alunos, que não era por maldade, mas sim por inocência, como o Sinésio Siqueira, que certa vez, quando a professora estava ensinando a conjugar o VERBO AVOIR = TER, que pronuncia-se AVOAR, ela foi interrompida pelo aluno e informada que o verbo é VOAR e não AVOAR.
Numa outra ocasião, em que teríamos de ler e traduzir a frase, quando na vez do Otoniel, um rapaz meio simplório, leu a frase em francês”LE LION EST LE ROI DES ANIMAUX”, ( O leão é o rei dos animais) e que pressionado pela professora e pela classe pela demora da tradução, descambou, para o desespero da D.EDA e alegria geral da turma, a seguinte tradução: ‘O LEÃO DE TANTO URRAR DESANIMOU”.
O sucessor da professora de Francês D.Eda Lancia foi um moço que veio de Itapetininga, GENÉSIO GERALDO GENEZ, que encontrou esses alunos um pouquinho mais avançados na língua francesa e já adentrados numa fase mais romântica, quase todos já tinham namoradas ou eram pretendentes. E foi aí, que o novo professor de Francês, conquistou aquela juventude com suas inesquecíveis aulas de Poesias, Músicas e da Língua Francesa.
Ficou marcado em nossa memória aquela aula que ele levou um aparelho de tocar discos, e colocou um de 78 rpm de “CHARLES TRENET” e passou a traduzir no quadro negro a letra de “LA MER”, que apesar da balburdia na classe naquele dia, pudemos notar e dar valor apenas alguns anos depois, quando o RAY CONIF gravou aquela música com sucesso no mundo inteiro.
Todavia, o que me marca, como foi intenso o alcance das aulas do Professor Genésio, foi o fato de que meu cunhado, o Zé Melo, e quem o conheceu lembra que ele era um tipo fortão, e mesmo que não aparentasse, mostrou ser uma pessoa muito sensível. Foi numa certa ocasião, quando nos surpreendeu, recitando inteirinho, um dos poemas que o Professor Genésio, tinha dado em nossa classe.
Era mais ou menos assim: “ Où vas tu nuage/ Je ne sais pas enfant /Je fais mon voyage/ Comme veut le vent..” não sei o restante, mas era uma criança perguntando a nuvem para onde ela ia e a nuvem respondendo que não sabia, pois ela ia para onde queria o vento.
Foi um sucesso lá em casa, porque nos lembrávamos do nosso querido professor de Francês, entretanto, meu cunhado passou a entoar esses versos em várias ocasiões e até no balcão de um bar que ele frequentava em frente de sua Gráfica, num Bairro de São Paulo.
Contou-nos ele, que nas segundas-feiras, vinham uns frequentadores de Bailes de Terceira Idade e passavam a contar vantagens sobre os colegas com parceiras dançantes, porque sabiam falar Inglês. O meu cunhado ouvia e sabia que eles não sabiam mais do que três palavras dessa língua e comentou com um parceiro ao lado: “Eu que falo mais de seis línguas não sou tão exibido como esse aí”. Nisso, seu parceiro de balcão e copo, despertado de curiosidade pede interessada-mente: — “Seu Melo, dá pro senhor falar em outra língua?” Meu cunhado, então, começou com toda entonação aqueles versos aprendidos numa longínqua aula do Professor Genesio: “Où vas tu nuage, je ne sais pas enfant…” Na medida que ele entoava o poema, subiam aos olhos do interlocutor, o respeito e a admiração pelo recém poliglota, tanto e quanto, na mesma proporção que baixavam nos copos, aquela cerveja trincando de gelada, como requer um clima tropical, embora nesta ocasião, ligeiramente acompanhada de um sotaque francês.
Antonio Isidoro de Oliveira (Poli)









