Entre a seita da cloroquina, movimentos anti-máscara e derrubadores de estátuas, entre ultra radicais da direita populista e intolerantes progressistas, caminha-se em tempos obscuros.
De pensar que há sete anos, em 2013, emergiram no mundo diversas manifestações pacíficas e virais, contestando o sistema partidário e estatal, demonstrando variadas indignações, em contextos de espontaneidade, nada arregimentado.
Foi o pico mundial do processo de democratização na base social, processo horizontal inovador, de muitos para muitos e não de um para muitos.
Enquanto no Brasil ocorria as festejadas jornadas de junho, em quase todas as cidades do Egito, ocorria o maior swarming civil da história da humanidade, que levou a deposição do jiha-dista eleito da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi.
A cultura patriarcal, em geral, já se revelava mais violenta na sociedade, desde o ataque terrorista do 11 de setembro, que derrubou as Torres Gêmeas. Com as manifestações amistosas em nível mundial, essa estrutura social patriarcal milenar, sentiu-se ameaçada.
Com o avanço desta cultura terrível, usando do que lhe restava, inclusive a manipulação das mídias sociais, como facebook e whatsapp, iniciou-se um forte processo de retrogradação social.
Caímos em 2020 numa deriva planetária lamentável, representados, no plano institucional, por Trump, Orban, Duterte, Kasinsky, Olavo de Carvalho, Steve Bannon, Salvini, Bolsonaro, Netanyahu, Modi, etc, afora os que já se degradaram por completo, a exemplo de Maduro e o sandinista Ortega.
O mais grave, no momento, é a porção liberal da democracia que se perde a cada investida e ataque da ultra direita populista, esvaziando tanto o conteúdo liberal da democracia formal, como esgarçando a base comunitária democrática.
Caminha-se para uma “iliberal democracia”, na expressão do autocrata Orban, vale dizer, transmutando-a em mera autocracia eleitoral, sem freios nem contrapesos.
Não mais se golpeia regimes democráticos colocando tanques militares e cavalos, fechando o Parlamento. A erosão democrática se dá pelo populismo, que não é um mero sinônimo de demagogia, assistencialismo ou características psicológicas de um líder popular.
A tendência captada, deste início do séc. XXI, é a recessão democrática, como apontam os estudos das Ciência de Redes e Política. O livro “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, toca nesse tema.
Nem o liberalismo econômico, que ainda acha o ser humano competitivo por natureza, pode indicar algo promissor, sendo mais um credo religioso do que uma hipótese científica.
E a cultura da intolerância está se revelando cada vez mais presente na comunidade. E no Brasil, desde a eleição presidencial, perde-se precioso capital social.
Rafael Ap. F. Almeida, advogado









