Rua Ramalhete

“Sem querer fui me lembrar
De uma rua e seus ramalhetes/ do amor anotado em bilhetes.
Daquelas tardes
No muro do Sacre Coeur/ de uniforme e olhar de rapina.
De nossos bailes no Clube da Esquina.
Quanta Saudade…”
Esta linda e rememorativa música, como sempre só revivida no YouTube, recebeu em Julho de 2005, dos moradores da Rua Ramalhete na cidade de Belo Horizonte, uma Placa em homenagem aos seus compositores Tavito e Azambuja.
Essa rua em Belo Horizonte, termina na esquina do Colégio Sacre Coeur, que na época era só feminino, e as alunas tinham um uniforme de saia azul plissada, camisa branca, meias três quartos brancas, sapatos pretos e gravatinhas. Pois foi essa música e a descrição desse uniforme, que também me fez lembrar o frisson que pairava em nossa Praça da Matriz, quando a partir das onze horas, aquelas mocinhas com idêntico uniforme, passavam pela praça para subir toda Rua Direita, entrar na rua do Posto do Brisola e seguir até a esquina da Marechal Deodoro, onde um quarteirão inteiro sediava o CERV, Colégio Estadual Dr Raul Ventureli.
Eu era moço nos anos sessenta e tinha ousado ir para a Capital tentar uma vida melhor, coisa que poucos enfrentavam naquele tempo, e São Paulo era o máximo que aspirávamos em empregos e oportunidades. Todavia, essa coragem só era considerável naquele tempo de exíguos horizontes incomparáveis aos de hoje, que se expandiram para todo e qualquer ponto do mundo, onde possivelmente há um jovem brasileiro tentando a sorte.
E foi num encontro com um contemporâneo, um outro que também ousara desbravar a vida em São Paulo, me confidenciou que logo nos primeiros meses de recém Paulistano, ostentando toda pose desse status, havia marcado um reencontro com uma ginasiana em nossa cidade natal. Combinaram se encontrar em frente o Cine São José, alguns minutos antes dela se dirigir para o CERV.Contou-me ele, que chegou um pouco mais cedo ou ela que se se atrasou, e enquanto esperava, pode analisar detalhadamente todos os retratos e cartazes pintados pelo Bingo, um artista nessa arte, os quais ele os expunha naquele espaço, anunciando os filmes que em breve seriam exibidos.
Quando a estudante finalmente chegou, e ele viu aquela ginasiana com uma camisa branca, uma saia de cor azul e plissa-da, com uma trança no seu ombro do lado direito e um olhar adornado por um leve e sério sorriso de cumprimento, meu amigo sentiu que fora nocauteado no primeiro segundo do primeiro olhar.
Segundo meu conterrâneo, até aquela linda e aplicada estudante percebeu que poderia perder a aula, caso fosse depender da definição dele, e com um leve aceno seguiu para o Colégio, deixando o ali meio estonteado e sem ação.
Dali do Cinema ele seguiu para a Praça a procura de algum conhecido e não cansava de lamentar a bobeira momentânea que tivera. Disse-me ele: – Meu Deus! Eu poderia ao menos tê-la acompanhado até o CERV.
Várias décadas depois desse pouco solerte acontecimento, casualmente encontrei esse meu amigo num Shopping de Septuagenários, um Hospital, e como o que mais nos sobra ultimamente é tempo, entre inúmeras reminiscências, acabei perguntando sobre a linda Ginasiana que atarantara sua vida.
Com um leve sorriso, confessou-me que após inúmeras peripécias acabou casando com ela. Contou-me que a alegria de acompanhar a estudante até o CERV, que lhe foi tolhida por um simples lapso de tempo, Deus, deve ter se condoído e concedeu-lhe como um crédito, e que acrescidos de muitos bónus, puderam juntos visitar todas as cidades do mundo que sonharam um dia conhecer.
Passear à noite na Avenida Charles de Gaulle em Paris, tomar um café na Praça São Marcos em Veneza, conhecer Londres, Amsterdã, Colônia, New York, Buenos Aires, Lisboa, Porto e algumas outras já na fase outonal da vida. Entretanto, ele ainda achava que aquela caminhada até a esquina do CERV, a nossa Rua Ramalhete, que ele não pode realizar, ainda que levemente, prevalecia sobre as viagens acima.
Não quis opinar, apenas considerei que no recôndito de nossas lembranças dos tempos idos e vividos, nós guardamos alguma lembrança de quando éramos moços, tempo inesquecível em que todas as estações do ano eram Primavera.

“Agradeço a todos que neste ano tão duro tiveram a generosidade de ler alguns escritos meus. Retribuo esperando que todos tenham um Natal e Ano Novo com muitas festas nos corações.

Antonio Isidoro de Oliveira (Poli) poli.oliveira@terra.com.br

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