
Em meados de Dezembro, o colunista do jornal O Estado de São Paulo, Roberto DaMatta, narrou que recebeu de sua netinha uma pergunta: “Para você, o que é o amor?” Entre as muitas respostas, destaquei a do trecho do livro de Thorton Wilder, A Ponte de São Luís Rey: “Há uma terra dos vivos e uma terra dos mortos e a ponte entre elas é o amor: o único significado”. Entretanto, ouso acrescentar que nesta ponte tão delicada, com imensa verossimilhança se fundem as palavras amor e música, explico: a música é um Dom Divino, concedido a poucos, e mesmo os que só apreciam, conseguem transpor sua alma por essa indecífrável e sublime ponte.
Foi neste mesmo mês, deste Covidoso ano, que o mesmo Jornal estampou uma manchete de que trinta e duas peças de Beethoven seriam interpretadas em um piano em cima de um caminhão. Teria sido para mim uma notícia comum, caso um dos intérpretes dessa anunciada caravana Musical/Cultural não fosse um moço de Capão Bonito. Não é primeira vez que esse talentoso músico nos surpreende, pois numa certa ocasião o Caderno 2 do Estadão publicou um magnífico trabalho dele, em que captou e transportou o som das músicas ainda interpretadas nas Capelas e Igrejas das pequenas cidades no Interior da França. Entretanto, nada foi mais marcante que uma foto postada no Facebook por sua tia, em que ele ainda criança de cinco ou seis anos deu seu primeiro concerto de piano, levado à Praça Central por ocasião dos festejos do aniversário da cidade de Capão Bonito.
Assim, como para confirmar que a música sempre foi algo de muita importância, meio de sublime e de mistério, que até os anos sessenta ela fazia parte da grade de matérias da Educação do Ginásio Estadual de Capão Bonito. E foi nesse estabelecimento de ensino que tivemos a primeira aula de musica de nossas vidas, quando já tínhamos o dobro da idade do mencionado menino e já concertista, Antonio Vaz Lemes, filho da Celeste Vaz.
Minha primeira professora de música foi a Margarida Piedade, uma mulher bonita, alta, e recém vencedora de um concurso de Canto na TV Tupi. Não me recordo de ela ter conseguido dar uma aula completa, pois sempre pedíamos para ela cantar e éramos prazerosamente atendidos, abrindo, com suavidade, nossos corações e almas para a arte da música.
Por ocasião de sua despedida como nossa professora de música, ela deu aos alunos que pediam uma lembrançinha, uma caixa de fosforo com sua foto. Contudo, na minha vez as lembrançinhas já tinham acabado e ela gentilmente tirou de sua carteira uma foto 3×4 que guardo até hoje, com o mesmo carinho com que me foi concedida.
Para as outras professoras que se seguiram a nos ensinar música a aceitação e a vida delas não foi muito fácil. Estávamos na verdade, “bem” acostumados com a mocidade, beleza e talento musical da professora substituída.
A primeira que veio tentar essa tarefa, foi D.Cordélia, uma senhora muito simpática e cordial, mas não permaneceu muito, sendo substituída por D.Mariana.
- Mariana aparentava ser uma professora frágil, entretanto, era muito atenta e dedicada à sua matéria, seguia os estilos mais tradicionais de manter uma rigorosa disciplina.
Os alunos tiveram dificuldade na readaptação ao novo estilo de aula e, desacostumados com cobranças mais técnicas sobre a música, ficavam sobressaltados a partir do inicio da aula, já quando aberto o livro de chamada e aleatoriamente escolhido o número de um aluno para solfejar, ou seja, ler as notas no seu tom, em uma pauta do “Caderno de Solfejos”, de João Batista Julião.
Que eu me lembre, os que mais sofriam eram os alunos com pose de cowboys que tinham de baixar o tipo de durão e se submeterem aos tons das sete notas, e pior, tolerar os risinhos dos colegas gozadores. Outra coisa que inquietava aqueles adolescentes e dóceis marmanjos eram o temor de reprovação e de perda de ano pela matéria de música.
Soube que a sucessora da D. Mariana foi a Professora Giselda Almada que, segundo dizem, relembrava nossa primeira Professora em termos de graça, beleza e simpatia, e também vinha de Itapetininga e era casada com um Desembargador de Justiça que, não raro, fazia questão de trazê-la para as aulas.
Apesar de tudo, em meu sentir, aquelas professoras eram garimpeiras em luta para encontrar um aluno que tivesse o pendão para a música. Um só que encontrassem já justificaria a infrutífera (mas sublime) busca.
Antonio Isidoro de Oliveira (Poli)









