O menino e o mar
Sempre que vai finalizando o quadriênio de um mandato, as pessoas de minha cidade ficam avivadas e acometidas de uma mudança comportamental, só comparável à chegada da primavera na natureza. Esta perceptível sensação permanecia naquela noite deste último setembro, há poucos dias antes das eleições municipais, quando após a festa de inauguração de um comitê político, uns amigos e eu alcançamos o Julinho Dias e sua esposa caminhando tranquilamente, indo para casa.
Seria inconcebível não abordá-lo naquele instante, pois embora ele não perceba, é sempre uma honra quando tenho a prazerosa oportunidade de poder cumprimentar o Julinho Dias.
Não são poucos, os que como eu, o tem em conta de uma pessoa muito especial, dessas, cuja passagem em nossas vidas deixam sempre marcas muito significativas.
Conheci o caráter, a transparência e a amizade do Professor Julio, quando ele era nosso chefe no Escritório de Contabilidade do Menin, em meu primeiro emprego. Éramos, na época, um bando de jovens invocados: Ratinho (Celso Matarazo), Jaiminho (filho do Ferrerinha), Carrité (Antonio Carlos Lisboa), Corvo (Amador Marcelino Ramos), Lee (Jose Erivagni Lucas). Contudo, o Julinho tratava a todos nós com muito rigor, porém, sem jamais privar-nos de tom fraterno.
Mas foi no futebol que o Julinho marcou sua história nesta cidade. Era um craque em nível de um Nilton Santos, tanto pelo futebol que praticava como pelo seu caráter, humildade e companheirismo. Era um jogador muito adiante de nosso tempo, e não por acaso, pois (conforme me confidenciou o Carrité), no seu tempo de estudante em Curitiba, militava nos times profissionais daquela cidade.
Por seu rigor na marcação, levado à sério até nos treinos do Ipiranga, fez com que ele e o Quinero se tornassem, indiretamente, os responsáveis pela formação do ataque mais arrasador que já teve um segundo time nesta cidade.
Explico: Por ordem do treinador, os treinos na semana eram sempre do time titular contra os aspirantes (como eram chamados) os jogadores do segundo time. Ocorria então, de o ataque titular enfrentar a defesa do segundo time, e, nós do ataque do segundo time, enfrentar a defesa titular. Em meu caso específico, que era marcado pelo Julinho, só conseguia pegar na bola quando ele permitia (o que era raro).
Ah!, mas nos dias de jogos era uma moleza, pois enquanto enfrentávamos os fraquíssimos beques do segundão do time adversário, os titulares tinham pela frente verdadeiras pedreiras. Eram goleadas históricas, que fazia a torcida preferir assistir mais àquele time da preliminar, do que ao da partida principal. O que a torcida não sabia, era que aquelas partidas significavam uma espécie de libertação do jugo da ferrenha marcação sofrida durante os treinos na semana.
Noutro giro, assim que abordamos o Julinho Dias, ele era explicitamente a alegria naquela noite. A festa do comitê, o comício, e o grande público presente, foram sinais indefectíveis que seu velho coração de pai intuiu: seu filho seria eleito prefeito. Naquele momento, ele era um pai incontidamente orgulhoso do filho. Conheço bem essa emoção, inserido nela que fui pela generosidade das mãos de Deus, e que enternecidamente sempre a tenho elado com a história do Menino que Nunca Tinha Visto o Mar:
“- Pai, este ano eu quero como presente de aniversário que o senhor me leve para conhecer o mar.
O pai, que em face de sua profissão tinha facilidade de se locomover para vários lugares, prometeu ao menino que o levaria.
Quando esse dia chegou, os dois caminharam juntos até umas dunas que antecediam a vista para o mar.
Assim que o menino viu o mar, explodiu diante de seus olhos um magnífico espetáculo de luzes e cores por ele jamais imaginado.
Ali estava o mar descortinando diante dele, naquela magnificência de cores: o verde miraculoso se transformando num magnífico azul e nos movimentos altissonantes das ondas, explodindo em branquíssimas espumas. E se repetindo em um verdadeiro milagre das cores, azul, verde, branco, e novamente o azul, a implodir e esparramar-se nas areias, como um arrendado branquíssimo.
Então o menino, diante de tanto deslumbramento, pediu:
-Pai, me ajude a enxergar! (Os seus olhinhos eram pequenos demais, para captar toda aquela grandiosidade e beleza do mar)”
Assim se sente o Dr.Julio Dias, o Julinho, colocando-nos a compartilhar de sua alegria, que é demais para ele sozinho.
Antonio Isidoro de Oliveira (poli) – poli.oliveira@terra.com.br
P.S: Na foto, Julinho Dias, é o sexto em pé, da esquerda para a direita.









