Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acendem um alerta preocupante sobre a saúde emocional de crianças e adolescentes no Brasil. Segundo levantamento publicado pelo portal IBGEduca, os estudantes brasileiros estão apresentando, desde os primeiros anos escolares, sintomas consistentes de sofrimento psíquico. As informações são baseadas na Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PeNSE 2019), na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2019) e em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Entre os principais destaques do estudo, estão sentimentos recorrentes relatados por estudantes, como tristeza profunda, irritação constante, sensação de abandono e pensamentos negativos relacionados ao valor da própria vida. Esses relatos revelam um panorama preocupante e cada vez mais frequente nas salas de aula e nos lares brasileiros.
O cenário é ainda mais alarmante quando se observa que, atualmente, cerca de 10,2% da população brasileira com 18 anos ou mais já recebeu diagnóstico de depressão — um número que ultrapassa os 16 milhões de pessoas. Esses dados reforçam o entendimento de que o sofrimento emocional, muitas vezes, começa ainda na infância e se prolonga até a vida adulta, caso não seja devidamente acolhido e tratado.
De acordo com estimativas da OMS, aproximadamente 8% das crianças e 14% dos adolescentes no mundo convivem com algum transtorno mental. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) complementa esse alerta ao afirmar que metade dos transtornos mentais que se manifestam em adultos têm início antes dos 14 anos de idade.
Para o psiquiatra José Eduardo Pereira Nora, diretor técnico da ViV São Paulo, pertencente ao grupo ViV Saúde Mental, os dados apresentados pelo IBGE são um chamado claro à reflexão coletiva sobre como temos cuidado do bem-estar emocional das novas gerações.
“Estamos diante de uma epidemia emocional silenciosa, que cresce alimentada pela rotina acelerada, pela falta de compreensão sobre as necessidades emocionais específicas dos jovens e pela ausência de espaços acolhedores onde eles possam ser ouvidos de forma segura. O sofrimento psíquico não espera a chegada da vida adulta para se manifestar. Pelo contrário, quando ignorado ou negligenciado, ele se intensifica e pode comprometer significativamente a trajetória de vida desses indivíduos”, alerta o especialista.
Segundo ele, é fundamental que a identificação precoce de sintomas e o encaminhamento para profissionais especializados façam parte do conjunto de estratégias prioritárias das políticas públicas de saúde e educação. O envolvimento de pais, professores e demais agentes da sociedade é indispensável para a criação de ambientes mais saudáveis e empáticos.
“Precisamos entender que investir na saúde emocional das crianças e adolescentes não é apenas um ato de cuidado, mas uma ação essencial para o desenvolvimento sustentável do país. O futuro do Brasil depende da qualidade de vida — inclusive emocional — das suas novas gerações”, conclui Nora.
Diante desse panorama, especialistas reforçam a importância de ampliar o acesso a serviços de saúde mental, promover campanhas de conscientização, capacitar educadores e fortalecer redes de apoio que ajudem a combater o estigma ainda presente em torno dos transtornos mentais. O desafio é grande, mas o silêncio diante dele pode custar caro demais.









