A casa mais antiga de Capão Bonito

Fotografias e texto de Verônica Volpato

 

Infelizmente não posso afirmar qual é a construção mais antiga de Capão Bonito ainda em pé. Para fazer essa afirmação seria necessário uma pesquisa profunda e conhecimento técnico e histórico e, ainda sim, é uma informação difícil de constatar. No entanto, existe na cidade algumas casas que nos dão a data exata das suas construções por meio do ano inscrito na fachada, na calçada ou soleira de entrada e até em ornamentos frontais. Casas com a data de construção indicadas na fachada eram bastante frequentes na virada do século XIX até início do século XX. Hoje é possível encontrar algumas poucas fachadas datadas no município de Capão Bonito, e, apesar de cada vez mais raras, duas delas são dignas de destaque, ambas anteriores a 1950 e pertencentes à família Vaz.

A primeira é a mais antiga e está localizada na esquina da rua Silva Jardim com a rua Saldanha Marinho e foi comércio do senhor Benedito Vaz por mais de quatro décadas. Sua estética singular pode passar despercebida por trás dos letreiros das duas lojas que hoje abriga. Um olhar mais atento revela o motivo geométrico marcante da platibanda que se alonga na fachada em direção às duas ruas que faz esquina. A utilização das platibandas tem como função evitar que as águas da chuva caiam sobre a calçada e sua utilização começou a ser aplicada no Brasil na metade do século XIX, rompendo com o estilo colonial que predominava até então. Sua consolidação foi influenciada pelo Código de Conduta de São Paulo de 1886, que instituía a obrigação da construção das platibandas para evitar a queda das águas da chuva sobre quem passasse nas calçadas. Esta obrigatoriedade permitiu uma variedade de possibilidades, ornamentos, aplicação de azulejos e desenhos de vários motivos, muitas vezes delegados à criatividade do mestre de obras. A construção, que hoje é exclusivamente usada como ponto comercial, constitui uma unidade formal conferida justamente pelo desenho da platibanda única na cidade e que se destaca pelo estilo totalmente diferenciado.

A antiga porta de entrada que fica na Rua Silva Jardim tem mais de 2 metros de altura, é feita de ferro e está pintada de azul claro. Acima da porta há duas bandeiras, a mais alta em formato de arco com ferragem em motivos orgânicos e é nela que se lê a inscrição “I E G”, datada como “1912”.  Esta é a construção mais antiga com data na cidade. Até agora desconheço outra mais antiga. Durante a guerra de 1932 Bendito já tinha sua atividade comercial na loja de secos e molhados onde vendia de tudo: fumo, pelego, bala, chapéu de palha, chita, enxada, facão e outros utensílios. A ameaça da chegada das tropas do Sul naquele ano, fez com que Benedito e sua noiva Francisca Ramos se casassem às pressas e fugissem para Itapetininga. Quem pôde, fugiu, quem não pôde, se escondeu. Antes de partir, seu Benedito escondeu uma grande parte da sua mercadoria no forro da loja e, ao voltar viu uma cidade saqueada, onde foi um dos únicos a ter algum produto para oferecer à população, sobretudo os tecidos. Foi nesta casa que suas 3 filhas nasceram: Ditinha, Cidinha e Celeste. A filha caçula, Lourdes Maria, nasceu na casa construída pela família na praça da Matriz, concluída em 1949, onde até hoje mora e cuja data permanece na fachada.

A residência da família Vaz é a última residência com características do estilo eclético totalmente preservadas no centro da cidade de Capão Bonito. A paisagem ao redor da praça da Matriz se encontra quase totalmente descaracterizada, por isso o sobrado se destaca visivelmente das construções ao seu redor, mantendo sua fachada como era originalmente. Diferente de outras construções daquela época ainda existentes na cidade, a casa é muito mais ornamentada do que suas contemporâneas, indicando o status social da família que a construiu. A casa em alvenaria foi construída geminada com suas vizinhas, característica típica das casas urbanas da época, assim como o quintal alongado ao fundo. Está pintada de branco e azul, cor que, segundo dona Ditinha, eram as originais. O parapeito da sacada apresenta balaústre geométrico. Acima do beiral da entrada está inscrita a data da construção: 1949.  A platibanda é assimétrica, sendo a da direita ornamentada com uma cruz e formas que remetem a art decô. Essas formas estão presentes no ornamente abaixo da janela do segundo andar e acima da janela do térreo, assim como no ornamento presente do lado esquerdo da sacada do quarto frontal. Sem dúvidas é a melhor representação do estilo eclético brasileiro presente na cidade e digna de ser notada e preservada. Tanto a construção comercial de esquina como a casa residencial na praça central- a mais bela e bem conservada fachada eclética ainda existente- fazem parte de uma história familiar transpassada e transformada pela experiência da guerra de 1932 e uma bela prova de que construções contam histórias. Se você tem alguma história pra contar sobre construções históricas de Capão Bonito e quer compartilhar comigo, escreva para veronica.volpato@gmail.com

 

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