Psicanálise e Relações Humanas: propósitos para o ano que se inicia

Walter Martins de Oliveira, Psicanalista e Doutor em Educação

 

Em todo início de ano, seguramente, a imensa maioria das pessoas alimenta um considerável número de planos, a saber, plano para o corpo, para o trabalho, para as finanças, entre outros tantos. Seria para causar admiração, mas quase nunca se planeja as relações humanas. Ou seja, como melhor interagir na família, na comunidade, na vizinhança, na escola, no trabalho, cuidar melhor das relações amorosas, gerir as próprias emoções e melhor compreender as alheias. Freud em sua obra “O Mal-estar na civilização” (1930), esclarece que, basicamente, os humanos têm três temores que lhes causam profundo sofrimento e lhes são implacáveis. São eles: a força da natureza, a fragilidade do corpo físico e a complexidade dos relacionamentos humanos. Referente à força da natureza não há nada mais pedagógico para ensinar sobre a absoluta fragilidade dos seres humanos. Apesar do avanço científico, mesmo assim, é certo afirmar que jamais os humanos dominarão as forças da natureza e, graças às mudanças climáticas (intensificadas pelos próprios homens e mulheres), são cada vez mais frequentes os eventos que confirmam a desproteção humana diante da “Mãe Natureza”. No que tange ao corpo físico, seu destino é a decadência, passível às doenças e tem seu final com a morte. Assim como a natureza, por mais avançada que esteja a ciência hoje, o corpo físico também não está sob o controle humano. A alta procura por cirurgias plásticas aponta para a resistência ao envelhecimento, para as armadilhas do tempo e para a verdade de quão forte é esse temor. Concernente ao relacionamento humano, este é, para os homens e mulheres, o mais grave dos três temores. Ele denuncia o terrível medo da rejeição, de não ser reconhecido, de não ser amado, de escancarar a própria vulnerabilidade e de apresentar-se tal qual se é, verdadeiramente. Ao mesmo tempo que necessita de relacionamento profundo, saudável, íntimo, próximo e amoroso, teme envolver-se emocionalmente e depois correr o risco de perder o objeto amado (a pessoa amada). Para Casarjian (1994), a grande tentação consiste em arrumar desculpas para odiar, desumanizar e sempre se justificar com narrativas que pareçam sensatas; dessa maneira, fabrica-se bodes expiatórios, adversários, inimigos e demônios particulares. Para Rocha e Santos (2024), a partir do Mal-estar contemporâneo, graças às dinâmicas neoliberais, esvaziou-se a função paterna (o pai vem perdendo o lugar de autoridade), responsável por interditar, censurar e proibir o desejo, o prazer ou o gozo. Devido a isso, desagua-se numa sociedade onde se prioriza a busca constante por uma felicidade vinculada à busca incessante de prazer, estilo de vida desregrado, consumista e individualista, que só gera desamparo. Desse modo, o neoliberalismo administra o sofrimento subjetivo/individual e inculca que o sofrimento individual (inclusive o psíquico), decorre apenas de falhas pessoais por fracasso, despreparo, ou preguiça do próprio indivíduo. Finalmente, parece que há algo fundamentalmente errado no estilo de vida e nos objetivos desejados e construídos quanto sociedade/coletividade e singularidade contemporâneas. A Psicanálise aponta um caminho profundamente humano: relações mais conscientes, menos impulsivas e mais responsáveis. Que o ano que se inicia seja novo, também, nas relações humanas e isso, sem dúvida, transformará a vida.

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