Machosfera: a misoginia que cresce nas redes

No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher e às vésperas da entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, um fenômeno preocupante ganha visibilidade nas redes sociais: a misoginia (conduta que manifesta ódio ou aversão às mulheres), propagada por comunidades online conhecidas como “machosfera”.

Esses espaços digitais reúnem grupos que incentivam comportamentos agressivos contra mulheres e difundem ideologias baseadas na superioridade masculina e na rejeição à igualdade de gênero.

Entre os principais grupos associados a esse ambiente estão:

Red Pill – Considerada uma das subculturas mais conhecidas da machosfera, a “Red Pill” se inspira no filme The Matrix. Na obra, escolher a pílula vermelha significa “enxergar a realidade”, enquanto a azul representa viver em uma ilusão. No discurso do movimento, homens que adotam a “red pill” acreditam ter despertado para um cenário em que, segundo eles, mulheres teriam mais privilégios sociais e legais.

Incel: O termo vem de “involuntary celibate” (celibatário involuntário). Integrantes desse grupo afirmam ser rejeitados por mulheres e atribuem essa rejeição a critérios físicos ou sexuais. O movimento passou a ser associado a comunidades marcadas por frustração sexual e hostilidade contra mulheres. De acordo com a ONU Mulheres, parte dessa cultura extremista sustenta que homens teriam “direito” ao sexo e acusa mulheres de negá-lo deliberadamente, além de incorporar discursos racistas e homofóbicos.

Caso ela diga “não”: A viralização dessa trend, virou caso de investigação pela Polícia Federal do Brasil. Vídeos publicados nas redes simulam reações violentas de homens diante de uma rejeição amorosa. As gravações geralmente começam com gestos românticos — como um pedido de casamento — e, após um “não”, mostram simulações de socos, facadas ou tiros contra mulheres.
Diante das denúncias, o Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil determinou que o TikTok apresente informações detalhadas sobre como identifica e remove conteúdos misóginos. A plataforma deverá explicar o funcionamento de seus sistemas automatizados de moderação, os mecanismos de revisão humana, o monitoramento de tendências e os controles do algoritmo de recomendação.
O governo também solicitou dados técnicos e metadados que possam ajudar na identificação dos responsáveis pelas publicações, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas. A cobrança ocorre após decisão do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Com isso, provedores podem ser responsabilizados civilmente caso não removam imediatamente conteúdos que configurem crimes contra mulheres.

Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil atingiu recorde de vítimas de feminicídio em 2025 e 2024, com 1.518 e 1.459 vítimas respectivamente.
A partir de 17 de março de 2026, entra em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, que estabelece novas regras para aplicativos, redes sociais, jogos e plataformas online. A legislação prevê medidas como verificação de idade, ferramentas de supervisão familiar, respostas mais rápidas a conteúdos ilícitos e limites ao uso de dados e publicidade direcionada a menores.

Embora não resolva o problema da misoginia nas redes, o novo marco legal pode reduzir a exposição de jovens a conteúdos extremistas e facilitar a atuação de responsáveis diante de comunidades digitais que promovem discurso de ódio.

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