Quando viver passa a ser apenas cumprir tarefas

Maria Goretti da Silva, Psicóloga – CRP 06/149116.

SerMentes – Reflexões sobre saúde mental

 

Em meio ao fluxo automático da rotina, frequentemente seguimos vivendo sem notar o que acontece em nosso mundo interno. É nessa pausa para a observação que a saúde mental ganha voz

 

Há períodos em que a vida parece entrar em um ritmo mecânico. Acordamos, cumprimos horários, resolvemos urgências, trabalhamos, cuidamos do lar, respondemos mensagens e quitamos contas. Quando a noite chega, a sensação predominante é a de ter apenas sobrevivido a mais um dia.

Tudo continua funcionando por fora, mas algo do lado de dentro parece ter entrado em estagnação.

Esse esvaziamento nem sempre é resultado de um diagnóstico de depressão ou de uma grande crise explícita. Muitas vezes, trata-se de um desligamento silencioso: vamos perdendo, em pequenas doses diárias, o contato com aquilo que dá cor e significado à nossa jornada.

Atravessamos os dias deixando de perceber as pequenas alegrias, adiando o descanso, abandonando interesses pessoais e nos acostumando com a falsa ideia de que existir se resume a responder a demandas.

A busca pelo sentido da existência

O psiquiatra Viktor Frankl, criador da Logoterapia, deixou um ensinamento profundo ao citar a premissa de que “quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como”.

Essa perspectiva nos lembra que a vida humana não é sustentada apenas por check-lists e obrigações. Precisamos de propósito, de conexões autênticas, de valores e da clara percepção de que nossa existência importa. Encontrar sentido não significa viver sem dificuldades, mas sim compreender por que vale a pena continuar caminhando, mesmo quando a estrada se torna íngreme.

Resgatando o que traz vitalidade

Diante da sobrecarga diária, a pergunta mais transformadora que podemos nos fazer não é “o que mais preciso fazer hoje?”, mas sim “o que ainda faz sentido para mim?”.

O resgate dessa resposta raramente exige grandes revoluções. Ele costuma morar nas coisas simples do cotidiano:

  • Um reencontro sem pressa com quem amamos;
  • O resgate de um projeto ou hobby há muito engavetado;
  • Um momento de silêncio e presença no meio da agitação;
  • A decisão consciente de cuidar da própria saúde física e emocional.

Quando a vida se reduz a uma sequência ininterrupta de tarefas, corremos o risco de esquecer de alimentar nossa própria vitalidade. Reencontrar o propósito é um processo diário, construído através de escolhas feitas com mais presença e intenção.

Viver vai muito além de dar conta de tudo. Viver é reconhecer aquilo que ainda faz o coração encontrar sentido no caminho.

Cuidar da saúde mental começa, muitas vezes, com uma simples pergunta:

O que hoje ainda faz sentido para você?

 

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