O luto à luz da Psicanálise

Walter Martins de Oliveira – Psicanalista e Doutor em Educação

 

Sigmund Freud, “pai” da Psicanálise, em sua obra Luto e Melancolia (1917), sustenta que elaborar a perda é um trabalho psíquico necessário. Segundo Marinho (2026), o luto para a Psicanálise é um processo gradativo de desligamento de um objeto de amor (objeto em Psicanálise pode ser também uma pessoa), mas isto não implica esquecer quem partiu, e sim, permitir que o afeto volte a circular e possa se descobrir em novos caminhos. Isto significa não perder a capacidade de amar. O sentimento (o amor) não pode desaparecer, ele deve apenas mudar de objeto. Igualmente, não significa abandonar quem morreu, mas continuar investindo na vida. Uma vez que se permaneça no passado, enterra-se o próprio presente e o que permanece não é a saudade do amor que partiu, mas a saudade de quem um dia se construiu como sujeito em condições de amar. Logo, fazer o luto não significa aprender a esquecer quem se foi, mas tocar a vida para a frente preservando no mais íntimo de si mesmo aquilo que a convivência com o/a outro (outra) foi capaz de construiu. A vida é feita de perdas necessárias. Seguramente, não morrer significa a capacidade de continuar investindo afeto na vida, apesar das perdas. Estas não podem fazer com que a vida seja movida apenas pelo dever, sem desejo e sem alma. De acordo com Viorst (1988), para que se possa compreender a vida é preciso compreender como enfrentamos nossas perdas; a vida que vivemos e a pessoa que somos são determinadas, para melhor ou para pior, pelas nossas experiências de perdas. Há coisas que na vida desistimos, para poder crescer. Isto justifica que precisamos enfrentar tudo o que jamais teremos e tudo o que jamais seremos. Lamentamos porque buscamos adaptação às perdas na nossa caminhada terrena. Mas é preciso buscar o fim do período de lamentações e isto quer dizer recuperar a estabilidade, a homeostase, a energia, a esperança, a capacidade de amar e de ter prazer em investir na vida. O sofrimento pela perda é patológico quando não podemos e não queremos nos libertar dele. Obviamente, perder é difícil e doloroso, porém, só através de nossas perdas é que nos tornamos seres humanos plenamente desenvolvidos. A morte do outro (outra) e em especial, de um ente querido, coloca-nos diante da nossa própria finitude. Há nesse acontecimento um inevitável confronto com a verdade de que também somos finitos, passageiros e que o tempo passa tão rapidamente como a areia que escorre por entre os dedos da mão. Não há nada mais pedagógico do que a morte. Muitas vezes ela mexe com o que preferimos não pensar. O luto traz consigo uma exigência: a reconstrução de si mesmo frente a ausência do outro (outra) que não só desapareceu, mas desorganizou nossa vida psíquica. Porém, o luto não tem a finalidade de esquecer o ente querido que partiu, pois elaborar, dar sentido à perda não significa “deletar” quem se foi. O amor continua a existir, entretanto, de outra forma. A Psicanálise nos ajuda a entender que não se trata de esquecer, mas elaborar, simbolizar e dar sentido para poder continuar vivendo, sem perder a capacidade de amar.

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