Walter Martins de Oliveira – Psicanalista e Doutor em Educação
O conceito de Fanatismo consiste num objeto de estudo da Psicanálise, dado que ela investiga as estruturas psíquicas do sujeito, suas relações de grupo (sociedade) e os mecanismos inconscientes, isto é, como a mente de um indivíduo se organiza e se relaciona com a linguagem (Lacan), com o desejo e com a realidade. “Um fanático é um orador completamente surdo” (Kallil Gibram). Etimologicamente, Fanatismo vem do latim – fanaticus. Origina-se da dimensão do sagrado, phanum (templo), e do grego phainomai (manifestar). Em sua origem, refere-se aos sacerdotes da deusa romana Bellona (deusa da guerra, representando a fúria, a carnificina e o caos do campo de batalha); esses fanáticos, por ocasião das festividades, saiam do templo tomados de delirium tremens predizendo o futuro, vitórias e derrotas dos militares romanos. Num estado de frenesi (delírio) e fúria (ódio), corriam pelas ruas segurando espadas em cada mão (Cf. Léxicon, Dicionário Teológico Enciclopédico). Num segundo momento, para além do aspeto do sagrado, passou a designar também aquele indivíduo que tem uma admiração excessiva, exagerada por alguém ou alguma coisa, que não muda de ideia, fixado no mesmo assunto, que tem a necessidade de controlar tudo e a todos. Denomina-se fanático aquela pessoa partidária (religiosa e/ou política) extremista, exaltada e sem capacidade crítica, que não aceita o diálogo, não aceita questionamentos racionais e julga que suas certezas têm origem divina. O fanático vive num estado psíquico de devoção cega, de bipolaridade (mania e depressão), rigidez, irracionalidade, delírio, falso moralismo, desequilíbrio emocional severo, ignorância (não por falta de conhecimento, mas por recusa intencional), desprezo à ciência e, o pior: por conta de sua “verdade”, é capaz de tudo, matar e morrer por ela (VASCONCELOS, 2014). Segundo Freud, há uma energia na associação de identidade que liga indivíduos e líderes. O líder pode oferecer ao indivíduo angustiado, desamparado e fracassado uma sensação de segurança e pertencimento. Criticar ou questionar seu líder passa a significar ofensa. Para a Psicanálise, o fanático é tomado por um mecanismo de projeção, ou seja, ele projeta no outro/outra seus próprios sentimentos de medo, ódio e insegurança. Odeia-se a si mesmo no outro/outra e passa a entendê-lo(a) como inimigo, merecedor de sua intolerância, violência e, no limite, da morte. Porém, o Fanatismo, para além da dimensão individual, pode ser também coletivo. Ele pode expandir para grupos e tomar conta de considerável parcela da sociedade, quando esses perdem a capacidade de pensar e, consequentemente, ocorre uma contaminação silenciosa e coletiva que transforma mentes saudáveis em cúmplices da destruição, marionetes da opressão e da estupidez coletiva. A Psicanálise pode contribuir ajudando o sujeito a entender e a aceitar que não há nenhum problema em não ser o dono da verdade. Ela está para ajudar o indivíduo a aceitar as próprias sombras (conflitos internos, traumas, medos, fracassos, faltas, limites e fraquezas), pois nisto consiste a possibilidade de amadurecimento. No processo psíquico de travessia e integração, a Psicanálise assegura a exigência em sustentar as convicções sem abandonar o pensamento crítico, a autocrítica, o diálogo e o respeito ao outro/outra.









