Sou um daqueles privilegiados de uma infância digna das obras de Monteiro Lobato. Se não fosse a obrigação dos estudos primários na cidade, o sítio seria meu habitat natural.
É claro que aproveitei os bons momentos escolares com a geração 87-94 da escola Jacyra, mas o prazer absoluto estava na fazenda Sorocaba no bairro da Franciscada, zona rural de Capão Bonito.
O bairro carrega um derivado do nome do fundador da comunidade, o meu saudoso bisavô Francisco Lino Rodrigues, ou melhor, o Chico Lino original.
Naquele ambiente rural, eu acordava às 04 da manhã, calçava um par de botas pretas com tamanho bem superior aos pés de um menino e aguardava meu tio Ernesto para a primeira tarefa do dia: a ordenha.
Que delícia! Eu tinha uma pequena caneca de alumínio com a imagem de Nossa Senhora Aparecida que me servia leite puríssimo e misturado com achocolatado em pó.
Aquela espuma sedutora é uma das mais saborosas lembranças daquela época.
A infância de ontem é melhor que a de hoje? Absolutamente que não! São tempos e gerações distintas, por isso, a importância da consciência na análise social/histórica.
O acesso com o mundo da informação era através de uma televisão com imagens chuviscadas e que, muitas vezes, precisava escalar um barranco para melhorar a captação do sinal.
Como a TV não pegava, tomei gosto pela leitura. Aos 7 anos me tornei leitor cativo da revista Globo Rural. Acabei enjoando e passei a comprar minhas próprias revistas: Placar e Manchete, além dos fantásticos gibis do Maurício de Souza.
Depois dos 10 anos, tudo ficou mais difícil e urbanizado. Tive uma última interação rural aos 12 anos e depois disso, tudo se apagou. Retornei a esse ambiente mágico depois de 28 anos e foi difícil segurar a emoção.
Com o Coronavírus, muitos voltaram ao campo, mas com a garantia da internet. Naquela época, não tínhamos Instagram, Facebook e Twitter para postarmos o Milk Shake natural da ordenha. A tecnologia poderá resgatar a velha infância.
Francisco Lino é jornalista.









