No comecinho dos anos oitenta, nas manhãs dos domingos a TV Globo apresentava o programa SOM BRASIL, e sua abertura musical era com “Vide Vida Marvada, com letra e música do cantor e apresentador, Rolando Boldrin. Essa toada e os Causos contados por ele, quase sempre, levavam a me sentir em uma estrada de sítio, ainda envolta no cheiro do verde e terra de chão, prestes a chegar em frente do terreiro de uma casa e ser recebido primeiro com surpresa, depois com aquela alegria e hospitalidade tão própria dos tios e avós.
Nesse mesmo tempo, quem fazia muito sucesso na TV era o ator Lima Duarte, e não foi nada estranho os dois se apresentarem juntos, mas não na televisão, e sim no Teatro Terraço Itália, ali na Avenida são Luiz, em São Paulo. Isso veio ocorrer num Recital de Guimarães Rosa, e anunciados como “Dois Caipiras de Black Tie” no espetáculo “SER TÃO SERTÃO”, onde os textos do autor mineiro eram recitados por Lima Duarte, entremeados de canções de Rolando Boldrin.
Anos após, com a saída de Rolando Boldrin, o programa passou a ser apresentado por Lima Duarte, contudo, foi mantido a música “Vide Vida Marvada”, como a música tema de sua abertura.
O novo apresentador, Lima Duarte, costumeiramente, abria o programa comentando ou interpretando um poema ou um texto de um autor vindo de diversos pontos dos Estados do Brasil.
Certa vez, ele foi buscar do Rio Grande do Sul, um texto de Mário Quintana, que assim foi interpretado pelo apresentador do programa: “Numa manhã, bem cedo, o autor sentou-se diante de sua máquina de escrever, colocou uma folha de papel em branco e ficou olhando a até que viesse algo para ele escrever nela.
Fitando aquela tela que se prontificara em sua frente, começou a observar uma formiguinha que entrou timidamente pela beira da página, atravessou-a de ponta a ponta, voltou e zigzagueou pela folha inteira novamente. Então, Mário Quintana se perguntou: O que eu posso acrescentar a essa folha depois dela ter sido inteiramente percorrida por uma vida?”
Guardadas as proporções, essa foi a interrogação que me ocorreu, pois neste mês de outubro, quando os professores ficam rebulidos de tantas homenagens e valorizações, andei nestas mesmas linhas, relembrando dois professores em uma AULA DE FRANCES, e isso fez inúmeros contemporâneos elencarem muitos outros professores que também foram importantes em nossas vidas.
Entretanto, o que mais me tocou, foi um apelo do meu amigo do peito, lembrando -me que entre os outros importantes professores, deveria me lembrar daquele que foi o nosso primeiro e único mestre da nossa Língua Mãe do Português, o Latim, e de quem ensinava a matéria mais sisuda e com menos charme na época, o Professor JOSE MATARAZZO.
Todavia, diante do pleito de meu amigo, eu me senti na mesma condição do Mário
Quintana, diante da folha em branco que já fora preenchida de vida, pois eu jamais poderia acrescentar o humor e a leveza existentes no poema de sua lavra: AULA DE LATIM.
Com o mesmo respeito e solenidade com o que houveram com os textos de Guimarães Rosa, Lima Duarte e Rolando Boldrin, colocando até smocking para interpretá-los, eu também vou ter que colocar no meu imaginário, aquele surrado terno de brim caqui dos tempos do Ginásio, para reproduzir abaixo o publicado, na Coletânea Poética Capão Bonito/SP, Novos Versos Gameleiros, em sua página 47, de autoria de meu amigo.
AULA DE LATIM
lupus, Lupi, luporum
Lá vinha seu zé Matarazzorum
Com seu cheiro de sacristia
E ar de sexta-feira maiorum!
E tomem declinações:
Inquisição do Nominativo,
Com um olhar no acusativo
De inferno ou purgatório!
Texto para a sabatina
E o famigerado exame oral,
Que tornava o velho mestre
Um dos membros do jurado
Do juízo final!
Quousque tanden, Catilina?
E a barriga respondia:
Até a hora do almoço.
Data venia, ab ovo,
Arroz-feijão e taubaina!
Tenho amigos, que ainda são capazes de lembrar das lendárias declinações,Tarquínio Soberbo, Romulo e Remo, que eram longos textos de histórias do Império Romano.
O PROFESSOR JOSE MATARAZZO era muito católico, ás vezes até ajudava nas missas e vivia sempre trajado com um terno de linho, impecavelmente branco.
Antonio Isidoro de Oliveira (Poli)
poli.oliveira@terra.com.br









