André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política; Cientista político e doutor em Economia
O Brasil foi reconhecido como o primeiro “País Criativo do Ano” (Creative Country of the Year) no Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions 2025. Não foi por acaso. A honraria reconhece o que nossos olhos já veem há séculos: a potência inventiva de um povo que transforma adversidades em soluções, tradições em inovações e diversidade em riqueza coletiva. Nossa criatividade é filha legítima da mistura de raças, culturas e biomas — um caldeirão onde o verde das florestas, o azul do céu e o brilho do sol se fundem ao sorriso aberto e à resiliência de quem sabe que a vida, mesmo dura, pode ser reinventada.
No cerne dessa criatividade está a capacidade de ver o mundo não apenas como ele é, mas como poderia ser. As gambiarras, tão brasileiras, são a expressão máxima desse espírito. Um cabo de vassoura que vira suporte para antenas, uma garrafa PET transformada em irrigador de plantas — esses são frutos de uma mente que desafia a escassez. Mas nossa inventividade não se limita ao improviso. Nas lavouras, a biotecnologia avança: sementes modificadas para resistir às mudanças climáticas, sistemas de energia solar integrados a cultivos agroflorestais, algoritmos que mapeiam o DNA da biodiversidade para curas médicas revolucionárias. Tudo isso nasce de um diálogo entre o ancestral e o futurista, entre o conhecimento dos povos originários e a precisão da ciência moderna. A bioeconomia extrativista da Amazônia é prova viva dessa sinergia. Comunidades tradicionais, armadas com saberes transmitidos por gerações, manejam a floresta de modo a extrair castanhas, açaí e óleos vegetais sem derrubar uma única árvore. Paralelamente, agricultores do Cerrado adotam técnicas regenerativas que não apenas recuperam solos degradados, mas sequestram carbono e ampliam a biodiversidade. São práticas que mostram como a criatividade, quando aliada à sustentabilidade, pode ser ferramenta de transformação ecológica e social.
Contudo, nossa criatividade ainda não atingiu todo seu esplendor. A miséria, que atinge 28 milhões de brasileiros, e a desigualdade, que nos coloca entre os países mais desiguais do mundo, são barreiras estruturais ao florescimento pleno das ideias. Uma criança que passa fome tem sua imaginação comprometida pela luta pela sobrevivência. A exclusão social não apenas fere dignidades, mas também apaga possibilidades — e, com elas, soluções que poderiam emergir das periferias, dos interiores, das comunidades quilombolas e indígenas.
A verdadeira criatividade exige liberdade — não apenas de expressão, mas de existir.
Os caminhos para esse futuro passam pela democracia diária. Não basta votar a cada dois anos; é preciso escolher, todos os dias, construir estruturas sociais inclusivas.
A criatividade brasileira já é um farol. Mas para que ela ilumine todos os cantos de nossa sociedade, precisamos derrubar os muros da exclusão. Só assim seremos não apenas o país da criatividade, mas o país onde criar é um direito de todos.









