Renato Janine Ribeiro, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
A ameaça feita por Donald Trump ao Brasil, em reação ao julgamento de golpistas envolvidos em ataques à democracia, não é apenas uma afronta à soberania nacional, é também um alerta sobre os riscos da complacência com crimes políticos. Mesmo passados dias do episódio, a tentativa de interferência externa continua sendo um tema urgente e inadiável.
Ao longo de sua história republicana, o Brasil frequentemente perdoou golpistas. Quando os golpes davam certo, os responsáveis assumiam o poder. Quando fracassavam, eram anistiados. Foi assim em várias tentativas, culminando no golpe militar de 1964, que nos custou 21 anos de ditadura, retrocessos sociais e econômicos e a destruição das instituições democráticas. Essa tradição de leniência ajudou a consolidar a impunidade como regra para crimes contra a democracia.
Hoje, pela primeira vez, o País enfrenta a oportunidade de romper com esse ciclo: julgar e, se comprovadas as culpas, punir os responsáveis por tentar destruir a ordem democrática. Esse processo precisa ser rigoroso, porém justo — garantindo o direito à ampla defesa e à produção de provas, como exige qualquer Estado de Direito. Mas ele também precisa ser firme. Não podemos repetir o erro do passado, é muito importante que o Brasil não seja mais uma vez complacente.
É justamente esse processo de responsabilização que incomoda Trump. Ao se posicionar contra a punição de golpistas brasileiros, o presidente norte-americano se coloca não apenas como interventor indevido em assuntos internos, mas como defensor de um projeto autoritário. Sua tentativa de chantagem deve ser rejeitada com firmeza. Não há democracia sólida que sobreviva cedendo a pressões de líderes estrangeiros que atacam os valores democráticos em nome de seus próprios interesses.
Punir quem atenta contra a democracia não é um gesto de vingança. É um ato de justiça e de preservação institucional. E, acima de tudo, é um compromisso com o futuro: sem responsabilização, há repetição. Cabe ao Brasil decidir se seguirá em frente como uma democracia madura ou se permanecerá refém de um passado marcado pela impunidade e pelo silêncio.









