Jogos de RPG viram alternativa no tratamento de TDAH e outros transtornos

Os jogos de RPG são um dos games mais populares no mercado e soma milhares de fãs espalhados pelo mundo. A novidade é que os jogos podem desempenhar um papel fundamental no tratamento de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outras condições similares. Oferecendo uma alternativa criativa, o jogo tem auxiliado no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, tomada de decisões, autoestima, resolução de problemas, estratégias de autocontrole e melhora na capacidade de concentração.

Em paralelo com os jogos eletrônicos, o RPG é projetado para uma interação e cooperação mais dinâmica entre os jogadores. Autista, palestrante e defensora da inclusão, a psicóloga clínica Roberta Cordeiro, que também é mestranda na Universidade de Brasília (UnB), explica que jogos eletrônicos não representam, em si, um problema, mas para indivíduos que enfrentam transtornos como TDAH, há uma maior tendência de utilização não saudável, já o clássico RPG, principalmente o de mesa, que envolve interação cara a cara, pode oferecer uma gama de benefícios, independentemente da faixa etária”, explica a profissional.

O RPG de mesa é um jogo narrativo em que os jogadores assumem personagens fictícios, exploram histórias guiadas pelo Mestre de Jogo e tomam decisões usando dados. “A ênfase está na criatividade, cooperação e desenvolvimento de uma trama. Os participantes, orientados por um terapeuta, exploram narrativas, enfrentam desafios fictícios e aplicam as experiências do jogo para melhorar habilidades na vida real, como comunicação e resolução de problemas”, completa.

Além do TDAH, a psicóloga tem notado uma excelente melhora na comunicação geral de pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), transtorno de ansiedade e baixa autoestima. “Imagina só, pessoas autistas, como eu, jogando RPG e encontrando nesse mundo fantástico, um lugar para socializar, se expressar e se entender melhor? O RPG tem ajudado muito, quando a comunicação no mundo real é complicada. Na literatura recente, temos observado uma melhora no bem-estar emocional, comunicação e amizades, desafios para pessoas autistas. Com o jogo, podemos trabalhar na construção do personagem e, consequentemente, na autoimagem real dessas pessoas e como elas se colocam no mundo”.

De acordo com Roberta Cordeiro, o tratamento pode ser realizado na clínica individual ou em terapias em grupo, e é notável que, em muitos casos, os primeiros sinais de melhora já se manifestam após apenas algumas sessões. “Na individual, eu jogo com o paciente ou realizamos “aventuras solo”, como é falado no meio do RPG. O processo terapêutico começa desde a criação do mundo/cenário, onde é possível trabalharmos e entendermos como a pessoa vê o mundo ou como ela gostaria que fosse. Ou usamos um mundo já existente nos jogos tradicionais, e começamos com a criação da ficha de personagem. Nela, colocamos os atributos, forças, fraquezas, histórias, desejos, itens, etc. Ao desenvolver uma habilidade na vida real, o paciente também evolui no jogo. Quando é RPG terapia em grupo, realizamos o RPG clássico, com mais jogadores que, no caso, são os pacientes, e eu/a psicóloga atuo como mestre de mesa. Como o psicólogo está mestrando, focamos nos desafios que vão ajudar a melhorar as queixas dos jogadores-pacientes e os auxiliamos com as ferramentas e conhecimentos da psicologia”.

A profissional reforça que não é preciso conhecer o jogo para começar a terapia. “Se está pensando em iniciar o tratamento com o RPG, quero te encorajar a dar esse passo. Mesmo se você ou alguém da sua família nunca jogou RPG, acredite, a experiência vai além da diversão, ela é profundamente terapêutica. É também a chance de construir amizades autênticas com pessoas que entendem os mesmos desafios. Juntos, vamos enfrentar e superar obstáculos, criando laços valiosos ao longo do caminho. Eu e outros psicólogos que trabalham com isso, estamos aqui para ser parte desse processo, guiando vocês em uma aventura de crescimento e conexão”, finaliza.

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