Novembro Azul: quase 50% dos homens ainda negligenciam os cuidados com a saúde

Por muitos anos, a saúde do homem foi tratada como tema de pouca prioridade. Essa visão contribuiu para que muitos deixassem de buscar acompanhamento médico, conversar sobre sintomas ou reconhecer sinais de alerta, comportamento que, ao longo do tempo, pode resultar em diagnósticos tardios e problemas graves para a qualidade de vida.
Hoje, os números mostram que essa resistência custa vidas. O câncer de próstata continua sendo o segundo tipo de tumor mais comum entre os homens, com cerca de 72 mil novos diagnósticos por ano no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Em 2023, foram 17.093 mortes registradas, o que representa 47 óbitos por dia. Mas o desafio vai além da doença. Ele passa por uma mudança cultural. Um estudo recente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) revelou que 46% dos homens só procuram um médico quando sentem algo, e apenas 32% afirmam se preocupar muito com a própria saúde.
Para o oncologista Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas, o primeiro passo é compreender o corpo e entender o que está em jogo. “De maneira didática, podemos dizer que durante toda a vida, nossas células se multiplicam e as antigas são substituídas pelas novas. Contudo, quando ocorre um erro nesse processo (mutação) há um crescimento descontrolado, levando a formação de tumores, como é o caso do câncer de próstata”, explica.
A próstata é uma pequena glândula, do tamanho de uma noz, que fica abaixo da bexiga e à frente do reto. Sua função é produzir o líquido seminal, que nutre e transporta os espermatozoides. O problema é que o câncer de próstata costuma ser silencioso, no qual a maioria dos casos não apresenta sintomas até estar em estágio mais avançado.
“Por apresentar sintomas mais evidentes quando a doença já apresenta evolução, é recomendável que homens a partir de 50 anos façam anualmente o exame clínico e a medição do PSA. Em casos específicos, o início da avaliação de PSA pode ser mais cedo inclusive. Quando há suspeita da neoplasia, indicamos a biópsia, muitas vezes precedida de ressonância, para confirmar o diagnóstico”, orienta Jardim.
A saúde masculina, no entanto, não se resume à próstata. Dados do Ministério da Saúde mostram que os homens vivem, em média, sete anos a menos do que as mulheres, em parte por negligenciarem consultas preventivas e hábitos de autocuidado.
“Em diversos contextos, ainda persiste a ideia de que o homem precisa ser sempre forte, o que pode dificultar que ele fale sobre o que sente. Isso impacta diretamente sua saúde. Muitos ainda associam o ato de procurar ajuda a uma fraqueza, quando, na verdade, trata-se de um gesto de cuidado e responsabilidade consigo mesmo. A prevenção também passa pela escuta, pelo acolhimento e pela construção de espaços seguros, onde ele possa se cuidar sem medo de julgamento”, explica Cristiane Bergerot, psico-oncologista e líder nacional da especialidade Equipe Multidisciplinar da Oncoclínicas.
Quando diagnosticado precocemente, o câncer de próstata apresenta altas taxas de cura. O tratamento depende do estágio da doença e pode envolver cirurgia, radioterapia, bloqueio hormonal, braquiterapia e, em casos mais avançados, radioisótopos, que emitem radiação diretamente nas áreas afetadas.

“Nos casos iniciais e de baixa agressividade, existe a possibilidade de acompanhamento próximo, sem necessidade de tratamento imediato. Já nos pacientes com metástases, temos hoje diversas abordagens que possibilitam um excelente controle da doença com preservação da qualidade de vida”, explica Denis Jardim.

A conscientização, portanto, precisa ir além da lembrança anual de novembro. “Cuidar da saúde é um ato de coragem e de amor próprio, e deve começar desde cedo, com educação em saúde e com a desconstrução da ideia de que o autocuidado é sinônimo de fraqueza”, finaliza o oncologista.

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