O fervor das Academias

As Academias se confundem com o conceito de cultura no trajeto civilizatório da humanidade. A mais famosa foi aquela criada no Jardim de Akademos, por Platão. Todas as outras copiaram o título e proliferaram.
A mais célebre talvez seja a Academia Francesa, fundada no século 17 por Richelieu e ainda hoje detentora de grande fama e prestígio. Nela se baseou a Academia Brasileira de Letras, fundada por Machado de Assis em 1897 e logo em seguida vieram outras, como a Paulista, que data de 1909. A completar 111 anos, portanto, neste emblemático 2020.
Existem os detentores de espírito acadêmico, assim como não é incomum o antiacademicismo. Há pessoas que ignoram a Academia, que se proclamam “não acadêmicos”, que consideram essa fórmula superada.
Posso afiançar que o convívio acadêmico é enriquecedor. A cada sessão se aprende. Ali ninguém está para “fazer currículo”.
Ao contrário, foi o currículo de cada “imortal” que, generosamente aferido pelos outros trinta e nove, conduziram à Instituição mais um membro vitalício.
Sou muito feliz por integrar várias Academias. E muito honrado por presidir, pela terceira vez, por clemência infinita de meus confrades e confreiras, a Presidência da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS.
Sempre incentivei a criação de novas Academias. Num tempo em que o Brasil se caracteriza por falta de polidez, por superficialidade e deselegância, é importante que haja espaços de certo ritualismo. A Academia é, antes de tudo, uma casa de bom convívio. Uma casa onde se aprende a respeitar a opinião alheia. Um ambiente de diversidade e de tolerância. E crescemos quando levamos a sério a vida acadêmica.
Isso não impede que façamos um retrospecto na História e detectemos períodos até mesmo bizarros. Como aquele da primeira metade do século 18 em Portugal.
Atribui-se a um fidalgo erudito e viajado, o Conde de Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses, a iniciativa de animar esse movimento literário que, assim como epidemia, se propagou pelo País inteiro.
Inspirando-se na agremiação de essência aristocrática e literária em plena efervescência na Cidade Luz, quis trazer a ideia para Lisboa. E fez renascer a Academia dos Generosos, insuflando-lhe o sangue já empobrecido da Academia dos Singulares, dando-lhe roupa nova: Academia Portuguesa.
Ela foi sucedida pela Academia Real da História Portuguesa, mas muitas outras iniciativas medravam e proviam a terra lusa de silogeus que brotavam nos pontos mais recônditos e mais rústicos da província. Tais cenáculos tinham títulos pitorescos: os Escolhidos, os Aplicados, em Lisboa; os Problemáticos em Setúbal, os Aquilinos de Aveiro, os Vimaranenses, os Unidos da Torre de Moncorvo, os Engenhosos Bracarenses, os Particulares e os Laureados de Santarém, a Palestra Literária de Ponte do Lima. Além disso, uma infinidade de outros grupos como os Infecundos, os Fleugmáticos, os Insurgentes, os Judiciosos, os Enfarinha-dos, os Aplicados Elvenses, etc.
A intenção dos homens cultos que se congregavam nas academias devia ser, naturalmente, purificar a atmosfera intelectual corrompida pela hipocrisia e pelo preconceito. Era a procura de lançar, no meio social, novos elementos de cultura, ideias mais sãs de arte, processos novos de estilo.
Essa tentativa deve ser estimulada no momento em que a ira, o ódio, o deboche, o sarcasmo, a ironia e a crueldade são frequentes companhias dos usuários das redes sociais.
Que vieram e vão ficar. Para o bem e para o mal.
A escola, tão carente de bons exemplos, é o ambiente em que as Academias de Letras Estudantis devem mostrar que há coisas mais sadias a que os jovens podem se dedicar, além de agredir professores e colegas, fazer bullying contra colegas e vandalizar o patrimônio pago por todos.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.

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