A jornalista e educadora Dulce Guimarães (1934-1988) escreveu uma preciosa crônica no jornal “O Bandeirante”, edição 588, de 7 de março de 1971, intitulado “O General da Banda”, onde o personagem contava a respeito de pretensas lideranças políticas locais que não aceitavam críticas às suas administrações governamentais.
Assim iniciava: “O ídolo das multidões incompreendidas, o grande General da Banda, lançou a praça mais um long-play.
Trata-se de um compacto de tangos com títulos diversos, de grande classe e de grande categoria, como aliás era de se esperar de um compositor de tal gabarito.”
A protagonista do texto, que havia chegado no lugarejo, logo foi chamada de “lá vem a madame”, “a analfabeta”, “a ingrata”. Narra sua aventura: “Quando ela criticou a água suja, barrenta e contaminada da cidade, disseram que a “Madame” não podia fazer isso porque não conhecia a Lei Orgânica dos Municípios.”
“Quando ela criticou a Câmara Municipal, que vendo coisas erradas, insistia em ter olhos vendados e bocas amordaçadas, disseram que a “Madame” não podia fazer isso porque não conhecia o Regimento Interno da Câmara e a Lei Orgânica dos Municípios.”
Assim agem os líderes pequenos, com visão diminuta. O padrão comportamental de general de banda ainda circula.
Quando um desses vence eleições, discursa a uma claque ensandecida. O último, festejou com simpatizantes que traziam caixas de isopor com latinhas de cerveja, na intensa aglomeração em frente ao comitê de campanha, afinal era o “candidato do churrasco”.
O general embevecia à militância de que a vitória triunfava sobre o ódio. Antes dele e abaixo dele, quiçá um cabo ou soldado da banda, anunciou que os traidores do município eram os grandes perdedores da eleição, gritando histericamente “o pior prefeito da história”.
O General da Banda, vencedor indiscutível das urnas, atacou. Na sua visão de mundo, era preciso reconstruir a cidade do zero, como se todos os avanços e correções administrativas anteriores não tivessem legitimidade alguma.
A justificativa da traição franqueava ao General da Banda falsear contra o adversário. Trucidá-lo na frente das massas, colocá-lo como inimigo da cidade, causando um frenesi absoluto na multidão.
O que não precisamos é de generais de banda, mas de bom senso, serenidade, ação governamental coordenada e planejada, ainda mais em tempos de Covid, porque até a vacina chegar, o vírus estará circulando fortemente até o inverno do ano que vem e precisará de esforços conjuntos para evitar sua propagação, as mortes, os novos casos, as sequelas de quem se curou e o aumento da taxa de ocupação de leitos, que já beiram o limite.
Rafael Ap. Ferreira de Almeida, advogado









