O Grupo Escolar

Texto e foto Verônica Volpato

 

A mais famosa e tradicional escola de Capão Bonito conta muitas histórias. A construção do então Grupo Escolar na cidade fez parte das ações do governo estadual para enfrentar os problemas urgentes da educação no início da Primeira República. Na virada do século XIX para o século XX, os censos realizados em países pesquisas mostravam que 85,21% da população não sabia ler nem escrever.

Inspirado na ideologia positivista de Auguste Comte, o governo promoveu reformas no ensino primário e secundário entre 1889 e 1925. Nesse período, por meio do Decreto Estadual nº 248, de 26 de setembro de 1894, o Estado de São Paulo criou os Grupos Escolares. O modelo seguia o exemplo de escolas que haviam surgido na Europa e, mais tarde, nos Estados Unidos. Essa iniciativa transformou o ensino público primário no país, organizando grupos de alunos sob a orientação de um único professor e criando o cargo de diretor escolar.

Além da nova estrutura administrativa e hierárquica, o movimento valorizou a arquitetura como parte fundamental dessa nova forma de ensino. A ideia era que a escola acompanhasse o crescimento das cidades e desenvolvesse uma cultura escolar adequada a esse contexto urbano. Segundo Clark, “o Projeto Educacional Republicano entendia a educação como instrumento de desenvolvimento intelectual e moral, requisitos importantes para alcançar o progresso nacional. Os grupos escolares surgiram como estratégia da elite republicana paulista e se tornaram um modelo a ser implantado em outros estados do país.”

Em Capão Bonito, as obras do Grupo Escolar começaram em 1909, sob a responsabilidade do mestre de obras José Rodrigues de Proença, conhecido como “Jucão”. O prédio foi construído em um terreno de 5.560 m², doado pela prefeitura durante a gestão do prefeito Heduvirges Luccas Lima Barbosa. Dois anos depois, a escola foi inaugurada com 261 alunos matriculados, mas terminou o primeiro ano letivo com apenas 153 estudantes.

O prédio da escola foi projetado por G.B. Maroni, que também fez projetos em outras cidades de São Paulo. Ele usava um estilo clássico simplificado e diferente do modelo padrão. A construção seguia as regras da época sobre iluminação, ventilação e higiene, com blocos separados para meninos e meninas. Cada bloco tinha quatro salas de aula e uma sala para a diretoria, unidos por uma parte central. Os banheiros ficavam em um galpão externo, como mandava o Código Sanitário de 1894.

O prédio tinha entradas separadas para cada bloco, com escadas independentes, portas de madeira com bandeiras para iluminação e detalhes neoclássicos. A fachada ornamentada tem o nome “Grupo Escolar” na parte central e grandes janelas com arcos decorados. As cores originais eram branco e bege. No porão, grande e bem ventilado, funcionava um almoxarifado. Durante a Revolução de 1932, a escola foi usada como hospital, e por décadas ainda havia inscrições deixadas por soldados no porão.

Durante a gestão do prefeito Abib Elias Daniel (1969-1972), o prédio recebeu muros e reformas, mas sem mudanças na estrutura original.

A escola leva o nome da professora Jacyra Landim Stori, nascida em 1906 em Itapetininga. Formada na Escola Normal Peixoto Gomide, ela fez parte de uma geração de mulheres que, como professoras, conquistaram um espaço importante no mercado de trabalho fora de casa. Jacyra mudou-se para Capão Bonito em 1935, lecionou no Grupo Escolar e, em 1947, foi eleita a primeira vereadora da cidade, mas não assumiu para continuar como professora. Morreu em 1955, e no ano seguinte a escola passou a ter seu nome.

Em 2002, o prédio foi tombado pelo Condephaat, junto com outras 125 escolas republicanas paulistas construídas entre 1890 e 1930. Se você tem fotografias, documentos ou histórias sobre o o grupo escolar, envie para mim por email: veronica.volpato@gmail.com ou instagram: @veronicavolp . Fotos e texto: Verônica Volpato.

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