Ninguém sairá igual como entrou nessa quarentena. Ninguém! As principais mudanças não serão as comerciais onde prevalecem as palavras americanizadas: e-commerce, drivethru, delivery…
É o velho complexo de vira-lata mais vivo do que nunca. Criado pelo escritor Nelson Rodrigues, o termo definiu a falta de autoestima dos brasileiros. Tudo teria começado com a derrota da seleção brasileira na Copa de 1950, em pleno Maracanã.
Ariano Suassuna também demonstrava preocupação com esse complexo. Quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, lhe ofereceram um jantar requintado na casa de uma família rica do Rio de Janeiro.
Durante a ocasião, a esposa anfitriã interrompeu o jantar e perguntou ao Suassuna: “Você naturalmente já foi à Disney, não é?”. Ele respondeu: “Não fui não!”. Ela insistiu: “Foi aos Estados Unidos e não foi à Disney?”. Respondeu novamente: “Nunca sai do Brasil minha senhora”.
A fisionomia da mais legítima representante da elite carioca era de decepção com as respostas. Talvez, tenha pensado em silêncio: “Esse aí não deveria ter sido escolhido para a Academia Brasileira de Letras”. Suassuna também refletiu: “Essa mulher divide a humanidade em duas categorias: quem foi e quem não foi à Disney”.
A anfitriã continuou: “Os professores dos meus filhos não tem nível suficiente para conversar com eles”. Imediatamente, Ariano ironizou: “Você é mãe de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco ou Castro Alves?”.
Infelizmente, ainda observamos muito dessa conduta por aí. Mas, quarentena mexeu um pouco com esse molho cultural. A soberba social deu uma murchada. O isolamento obrigou todos a exercerem a reflexão.
Na fila do supermercado, da lotérica e da Caixa Auxílio, todos se olham de máscaras e receosos, como na época do pequeno cemitério Nhô Felix. Os homens ficam ainda mais desinteressantes de máscara, já as mulheres resgataram a arte e o charme da beleza feminina.
Os valores serão alterados com a quarentena. Descobrimos o que realmente é fundamental e nos faz falta. Isolamo-nos para nos encontrar e o nosso melhor companheiro, somos nós mesmo.
E quem mais sofreu com o isolamento dos bancos da praça foi o amigo Divanir Queiroz. Logo, tudo isso vai passar!
Francisco Lino é Jornalista.









