O QUE NOS RESTA

Texto e foto: Verônica Volpato

 

A partir de hoje, o Jornal Expresso inaugura a publicação de uma série de textos sobre o patrimônio arquitetônico de Capão Bonito e tudo o que esses locais podem nos contar sobre nossa cultura e história. O constante desaparecimento de construções históricas e a descaracterização do centro antigo da nossa cidade foi o primeiro impulso para um trabalho de pesquisa sobre o que ainda resta em pé.

Paralelo ao desconforto diante dos desaparecimentos, fui descobrindo que o nosso patrimônio local está na arquitetura, na gastronomia, na música e na natureza, imensurável riqueza protegida pelos parques da nossa região. Essa descoberta está longe de se esgotar e, enquanto isso, a urgência para o registro e proteção da nossa cultura cresce entre a população. Desde o início dessa pesquisa que se tornou um livro digital, tenho encontrado cada vez mais eco para essas questões e posso afirmar que essa tristeza que sinto quando uma árvore centenária é cortada e uma casa histórica é demolida, também é compartilhada pela população capão bonitense.

Essa pesquisa só foi possível porque tive a colaboração de guardiões voluntários da nossa memória que guardam em seus arquivos particulares, fotografias e documentos variados, sem os quais esse levantamento não seria possível. Infelizmente, não há arquivo sob cuidado do poder público, tampouco existe um museu ou casa de memória que recupere e conserve documentos importantes como fotografias, ilustrações, jornais e outros bens históricos. A biblioteca municipal Mário Gemignani poderia receber um acervo de documentação segundo padrões arquivísticos e de conservação e cumprir a função de preservar nossa história. No entanto, em seus mais de 50 anos, nossa biblioteca continua sem um bibliotecário e, por falta desse profissional capacitado, ela está impedida de cumprir sua potencialidade.

Por isso, esse levantamento realizado nos último 3 anos, é resultado de um trabalho coletivo e tem o objetivo de preservar o que ainda resta da materialidade da nossa memória incorporada em 10 pontos importantes localizados no centro histórico de Capão Bonito. Quem ainda guarda em suas lembranças as construções históricas que têm sido demolidas no centro da cidade? Quem não sofreu, por exemplo, com a venda e a transformação da casa do padre (ao lado da igreja matriz) em um mini shopping, depois em banco e agora e em mais uma farmácia? A modificação da paisagem no entorno da praça Rui Barbosa, nosso marco zero, tem acontecido de forma desordenada, sem respeitar nossas tradições e, assim, nossa história vai sendo apagada e transformada em um lugar sem alma, como em muitas cidades brasileiras repletas de farmácias e construções do estilo “caixote”. Com o objetivo de registrar o que ainda resta do nosso acervo a céu aberto, o livro “Levantamento do Patrimônio Arquitetônico de Capão Bonito” está disponível no site do jornal Expresso gratuitamente.

Essa série que apresente uma pouco da pesquisa será publicada nesse jornal para que alcance mais pessoas e quem sabe, possamos trabalhar para preservar o que ainda nos resta.

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