Os filhos de Juca Guerra

Neste encarceramento do Coronavirus, são frequentes os convites para releituras de bons livros, quase todos bem aceitos, alguns irresistíveis, quando o escolhido contém meu apreço,como no caso de “Gabriela Cravo e Canela”, do escritor baiano Jorge Amado. Esse livro, levou-me incontinente ao final dos anos cinquenta, quando do seu lançamento com grandioso sucesso, ocasião que perguntei à Professora de Português, D.Olga Lemes, a saudosa D.Olguinha, se ela já havia lido esse livro.
A resposta dela foi que não, mas ficara sabendo que o livro era muito “imoral”. Bem mais tarde, entendi que na época, o desgarrado e tórrido romance do Turco (Sírio) Nacib, com a linda morena Gabriela, era coisa pecaminosa e condenável. Não conhecíamos ainda, a literatura explicitada da sensualidade da mulher brasileira, na obra desse autor, o máximo que tínhamos visto era o contido, “A CARNE”, de Júlio Ribeiro, lido às escondidas pelos rapazes e mocinhas estudantes da época.
Contudo, o meu prazeroso reencontro com ‘Gabriela Cravo e Canela” , acontece com o Nacib voltando quase ao amanhecer de uma noitada no Cabaré, quando mal acabara de deitar, batidas na porta o levantaram para o problema, que é a linha dele no romance, a busca de uma nova cozinheira. Quem o acordara tão cedo, fora a D.Filomena, sua ranzinza cozinheira, que estava cumprindo antiga promessa de um dia deixá-lo para ir morar com o filho, que estava prosperando numa cidade longe de Ilhéus. Logo naquela semana que ele tinha a encomenda de um banquete para os empresários, políticos e pessoas importantes, para inauguração da Linha de Ônibus Ilhéus a Itabuna. A Empresa de Ônibus, tinha adquirido quatro ônibus novos que iria mudar e trazer muito progresso a cidade, além de substituir as marinetes, aquelas que aqui no Sul, eram chamadas de Jardineiras. Lembrei-me imediatamente desse tipo de condução que desfrutávamos aqui em nossa cidade, elas faziam as linhas de Guapiara e o mais distantes que iam era até Itapetininga, assim mesmo, tinham uma parada na metade do trajeto, em Gramadinho, a do famoso “Bolinho de Frango”. Tinham poucos horários esses ônibus, as vezes iam cedo e voltavam só a tarde, período aproveitado pelos cobradores para atender as encomendas de remédios e outros que não tinham em nossa cidade. Foi bem mais tarde que uma próspera família de imigrantes italianos, adquiriram novos ônibus para atender em mais horários a linha para Itapetininga, muito embora, conservando a parada do bolinho de frango.
Foi no começo das Jardineiras, que um moço descendente de tropeiros gaúchos da cidade de Cruz Alta, Rio Grande do Sul, começou corajosamente construir sua vida aqui em Capão Bonito, primeiro se instalou em Itapetininga, mas logo decidiu-se por nossa cidade, onde se casou e teve cinco filhos. Desde sempre, demonstrou um alto tino para os negócios, prosperou muito e foi um visionário, esteve sempre à frente de seu tempo em pecuária e agricultura. O título desta, busca apenas dar um codinome a esse descendente de gaúcho, nominando o como o valente personagem de Simoes Lopes Neto, extraído de um capítulo de Contos Gauchescos e Lendas do Sul, o “Juca Guerra”.
Como se depreende também do título acima, Os Filhos, estes constituíram o sonho que esse pai acalentou por toda uma vida, queria vê-los todos estudados e formados. Como sempre acontece, ele tinha um que não queria nada com a vida de estudante.
Seu pai, um homem com vasta sabedoria, determinou ao jovem rebelde, o seguinte: Você, vai comigo a partir de agora, todo dia bem cedo para a Fazenda, que ficava a uns dez quilómetros da cidade, e lá conhecerá como é a vida de quem não tem estudo.
Não sei ao certo como foi sua vida nesse aprendizado, apenas sei que havia uma determinação de sua mãe para que todo sábado, quando saísse da Fazenda, trouxesse três frangos para o almoço de domingo.
Naquele sábado, ele quase perde o ônibus daquele horário que voltava de Itapetininga, carregando um saco de estopa com três frangos, atravessou a estrada correndo para pegar o ônibus, que já estava quase passando.
Quando entrou no ônibus, este estava lotado de moças com bobs no cabelo e um lenço de seda em cima para proteger a armação dos cabelos. Ocorre que naquele sábado haveria um baile com uma orquestra de fora, e o parco numero de salões de beleza em nossa cidade não daria conta de atender a todas elas, então, o jeito foi procurar em Itapetininga.
O nosso passageiro sem lugar para sentar e no corredor, acabou se atrapalhando e aconteceu uma fuga de galinhas do saco de estopa, o que colocou em polvorosa as mocinhas e seus penteados com os lenços sendo agarrados pelos pés de frangos, causando uma gritaria infernal, obrigando a parar o ônibus.
O motorista queria tirar o nosso passageiro do ônibus, as mocinhas queriam matá-lo, ele então se defendeu dizendo: – Seu motorista, se eu não levar esses frangos para o almoço de amanhã, quem vai me matar é a minha mãe!
Pelo o que sei, a noite o Baile foi muito bom e o penteado das mocinhas um sucesso. Também, não sei se aquele moço voltou a estudar, entretanto, sei que seguiu o pai na política, estiveram juntos em mandatos.
É uma das pessoas mais alegres e inteligentes que conheço, atualmente se dedica a dar às pessoas que precisam, os seus experimentos de remédios extraídos de plantas medicinais. Gosto muito de conversar com ele, tem sempre um caso engraçado para contar. Esse das galinhas foi um entre muitos outros que me contou.

Antonio Isidoro de Oliveira. (Poli)
poli.oliveira@terra.com.br

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