Walter Martins de Oliveira – Psicanalista e Doutor em Educação
Na sociedade atual comumente nos deparamos com pessoas, homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras insistindo sempre no mesmo assunto, ou seja, denunciando acúmulo de coisas para fazer, cansaço físico e mental. De acordo com Fromm (1963) e Huxley (2014), depreende-se que uma sociedade sadia não é aquela que transforma homens e mulheres em instrumento de uso, exploração e lucro, convertendo-os em autômatos e controlando-os tal qual uma população de escravos e escravas, induzindo-os a amarem o que são obrigados a fazer e a amarem a servidão, a ponto de muitos (dessa mesma massa) não se colocarem, por exemplo, frontalmente contra a escala de trabalho seis por um. Nunca a sociedade contemporânea, de modo especial a população trabalhadora, esteve tão cansada, nunca esteve tão esgotada física e mentalmente; igualmente, a humanidade nunca esteve tão infeliz. Para Souza (2024), o esgotamento físico e mental tem sua raiz no novo jeito de dominar, a saber, as elites econômicas e políticas cada vez mais lançam mão da violência simbólica, a partir do comando consciente dos medos e ansiedades das massas, instituindo para elas a “fabricação de consentimento”. Isto impede o sujeito em sua capacidade de trabalhar criativamente, desenvolver a razão e conquistar sentimento de si mesmo à luz de suas próprias capacidades produtivas. Sem acesso à educação libertadora e alicerçadas em conteúdos puramente afetivos, as massas reproduzem inconscientemente as falsas percepções do mundo, entendendo os desejos unicamente como o capital, o consumo, o luxo e o dinheiro. A burnout é muito mais que um problema de saúde individual, é a materialização das garras do neoliberalismo, um modelo de gestão que se aproveita do sofrimento psíquico para manter a produtividade no sistema capitalista. Conforme Castilho (2024), a palavra burnout deriva da língua inglesa (burn: queima e out: fora), e significa um fogo que se apagou e perdeu energia. Trata-se de um esgotamento profundo, uma síndrome que se apodera do corpo, da mente e esgota as forças afetivas do sujeito, produzindo enfraquecimento pessoal e indiferença frente à realização de um projeto de vida. É um sofrimento psíquico e vai se acumulando, graças ao desgaste orgânico, sobretudo, por conta das relações interpessoais. A pessoa se apresenta exausta emocionalmente, distante afetivamente e sentimento de ineficácia. O exemplo clássico é o do professor que não mais encontra sentido em ensinar. Vivemos em um tempo em que não basta fazer bem: é preciso fazer mais, mais rápido e melhor que todos o tempo todo. E há os que não conseguem descansar sem sentir culpa e flexibilizar o superego, a censura interna; é como se parar fosse falhar e se o valor de uma pessoa estivesse diretamente ligado à sua produtividade. Por isso, quando um procedimento falha, não é apenas o trabalho que falha — é o próprio sujeito que se sente fracassado. E é aí que a Psicanálise oferece importante contribuição: um espaço onde o sujeito consiga questionar suas exigências internas, reconhecer seus limites, voltar a desejar e cuidar de si sem abandonar as responsabilidades. Logo: o que em você pede descanso?









