Arrumar o próprio quarto, ajudar a colocar a mesa ou guardar os brinquedos podem parecer tarefas simples no cotidiano das famílias. No entanto, quando incorporadas de forma adequada à idade e ao desenvolvimento da criança, essas atividades podem ter um papel importante na formação emocional, social e cognitiva de crianças e adolescentes.
Segundo Carla Litrenta, pedagoga, educadora parental e coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri, a participação nas tarefas domésticas ajuda a construir autonomia, responsabilidade e senso de pertencimento. “A participação nas tarefas domésticas costuma trazer impactos muito positivos para o desenvolvimento. Quando a criança entende que faz parte do funcionamento da casa, participando da dinâmica familiar, ela tende a desenvolver senso de responsabilidade, autonomia e pertencimento”, afirma.
Além disso, essas atividades ajudam a desenvolver habilidades práticas importantes para o dia a dia, como organização, planejamento e cooperação. No campo socioemocional, fortalece a autoestima e a percepção de competência. “Desde os primeiros anos de vida, o que aprendemos e praticamos dentro de casa funciona como um alicerce para a forma como entendemos o mundo. É no ambiente doméstico que muitos valores e comportamentos se consolidam”, explica a educadora.
Apesar dos benefícios, é importante respeitar os limites de cada fase do desenvolvimento. Excesso de cobrança ou responsabilidades desproporcionais podem gerar efeitos contrários aos desejados. “Impactos negativos costumam aparecer quando as tarefas não respeitam a idade da criança ou são acompanhadas de críticas constantes. Isso pode gerar frustração ou resistência”, afirma Carla. “É fundamental que o adulto tenha clareza sobre o que é possível esperar da criança em cada fase, evitando expectativas que ainda não podem ser atingidas.”
Usar as tarefas como punição pode prejudicar a forma como a criança percebe a colaboração familiar. O ideal é que essas atividades façam parte da rotina da casa, assim como estudar ou cuidar da higiene pessoal. “Quando a tarefa doméstica é usada como castigo, existe o risco de a criança associar a colaboração a algo negativo ou injusto. A família deve apresentar as tarefas como uma forma de cooperação: todos que vivem na casa contribuem para que o ambiente funcione bem”, diz.
Na primeira infância (até os 6 anos), atividades simples como guardar brinquedos, ajudar a colocar talheres na mesa ou organizar materiais escolares já são formas de participação. Na idade escolar (dos 6 aos 12 anos), as crianças podem colaborar arrumando a cama, separando roupas ou ajudando no cuidado de animais de estimação. Já na adolescência (a partir dos 12 anos), tarefas que exigem mais planejamento podem ser incluídas na rotina, como preparar refeições simples, organizar a própria agenda de estudos ou ajudar em pequenas compras da casa.
“Assim como acontece com outras habilidades, as responsabilidades domésticas também devem evoluir conforme a criança cresce. O importante é que as responsabilidades cresçam junto com a autonomia. Isso ajuda o indivíduo a perceber que está desenvolvendo competências úteis para a vida adulta”, afirma Carla.
O comportamento dos pais e responsáveis também influencia diretamente na forma como as crianças percebem as tarefas domésticas. “As crianças aprendem muito observando os pais. Se os adultos demonstram cooperação e uma atitude positiva em relação às tarefas, é mais provável que os filhos internalizem esse comportamento”, afirma a especialista.
Mais do que ensinar a limpar ou organizar ambientes, a participação nas tarefas domésticas pode contribuir para a formação de valores que acompanharão a criança ao longo da vida. “Quando a criança percebe que suas ações contribuem para o bem-estar da família, ela aprende cooperação, responsabilidade e respeito pelo trabalho coletivo. Esses aprendizados costumam se refletir também na escola, nas relações sociais e, futuramente, na vida profissional”, conclui Carla.









