The Platers

No finalzinho dos anos cinquenta, lembro-me bem, em nossa cidade, havia um incontído clima de romantismo envolvendo todos aqueles jovens que buscavam nas músicas dos rádios, dos discos e no cinema, um complemento de seus namoros. Caso fizéssemos naqueles dias uma Enquete para escolher a música preferida como tema pelos enamorados, certamente o resultado seria a esmagadora escolha por “ONLY YOU”, vindo a seguir “STARDUST”, ”LOVE IS A MANY SPLENDORED THING”, “BESAME MUCHO” e “AQUELES OLHOS VERDES”.
A musica “Only You”, a preferida dos namorados era interpretada pelo THE PLATERS, um grupo vocal Norte Americano formado por três rapazes e uma moça, extremamente elegantes, e que já vinham estourando em sucesso pelo rádio.
E pelo cinema, foi no velho Cine São José, um filme em preto e branco com a presença dos The Platers, em pleno meio de semana deixou o cinema lotado, todos queriam ver pela primeira vez, aquele quarteto que fazia sucesso no mundo. Quando THE PLATERS apareceu na tela, cantando “ONLY YOU”, o cinema foi tomado por um frisson de longos suspiros enamorados.
Foi tentando imitar a pose daquele Grupo Vocal tão elegante, que aqueles quatro rapazes, casualmente, tarde da noite, se reuniram em um estúdio fotográfico, que ficava na Rua Direita, em frente ao velho Ginásio, o FOTO UEDA. Algum contemporâneo, há de lembrar que as vinte e duas horas, havia um esvaziamento natural da praça, coadunada com as expressas ordens das mães das mocinhas: “Dez horas, para casa!” Depois desse horário, apenas o Foto Ueda permanecia com a vitrine iluminada até tarde da noite naquela rua.
A fotografia foi produzida pelo Edson Ueda, do FOTO UEDA, onde realizava um trabalho profissional magnífico, era um artista que extraia o lado mais bonito dos fotografados, transformava um simples três por quatro, documento de identidade, em um quadro para a sua já famosa Galeria.
Na verdade, estávamos a olhar as novidades dessa Galeria, quando decidimos por essa foto, que apresenta a mesma formação dos THE PLATERS: à frente está o Lauro Bonilha, o Esmeraldo Franco, eu, e o maior galã do grupo, o José Rossi.
Reporto-me a esta simbólica fotografia, parafraseando GABRIEL GARCÍA MÁRQUES, em “O Amor no Tempo do Cólera”, para o que considero similar, O AMIGO no Tempo do Coronavirus, cujo confina-mento, também encarceram conosco, lembranças e imensas saudades. .
O primeiro que deixou o nosso convívio da citada foto, foi o mais galã de todos, o JOSE ROSSI. Ele se foi aos quarenta e quatro anos, em um acidente de carro na Regis Bitencourt, tinha uma brilhante carreira pela frente, era bilingue, e ocupava a gerência em uma importante Multinacional de Mineração.
Ainda em tempo do Coronavirus, recentemente, fomos impedidos de prestar uma última homenagem ao mais talentoso dos quatro rapazes, o músico e professor LAURO BONILHA, que nos deixou neste último abril.
O nosso Laurinho, era um baterista muito respeitado no mundo musical, fez parte de vários conjuntos da explosão do Rock no Brasil. Eu mesmo, testemunhei certa vez, quando ele já tinha deixado o conjunto Os Incríveis, o jeito que Netinho, o novo baterista do conjunto o recebeu, parecia ter a alegria de um náufrago vendo a salvação, e o Laurinho, pacientemente, deu-lhe algumas técnicas de levadas na bateria, como sempre faz um grande mestre.
Ele demonstrou coragem e independência, ao trocar a rentável música de momento, pelo convívio com o que havia de melhor na MPB, trabalhando no BAIUCA, ali na Praça Roosevelt,considerado o templo da musica. Lá, era frequente presença de músicos internacionais e até se confirma , foi um nas-cedouro da Bossa Nova com o balanço diferente do pianista e cantor Jonhy Alf. O Laurinho, formando o SAMSA TRIO, gravou disco de Jazz, tido como importante por especialistas, fez Cruzeiros, tocou com grandes músicos sendo considerado um dos maiores Bateristas do Brasil. Aquela aparência de arrogância que parecia ter, era só uma defensiva de sua timidez.
Dessa foto inesquecível, só ficaram dois, o SMK e eu, contudo, já avisei ao meu grande amigo, nenhum dos dois vai poder avisar ao outro da próxima Baixa.

Antonio Isidoro de Oliveira (Poli)
poli.oliveira@terra.com.br

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