Transtorno Dissociativo de Identidade: condição rara está ligada a traumas graves na infância

O Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), anteriormente conhecido como transtorno de personalidade múltipla, é uma condição psiquiátrica rara caracterizada pela presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos. Essas identidades surgem a partir de uma fragmentação da personalidade original, geralmente como resposta a experiências traumáticas intensas vividas na infância.

Segundo a psiquiatra e escritora Ana Beatriz Barbosa Silva, em participação no podcast Podpeople, o transtorno costuma estar relacionado a situações de estresse extremo e prolongado durante os primeiros anos de vida. “Está muito ligado a abuso físico, psicológico e sexual”, explica a especialista.

As diferentes identidades podem apresentar nomes, idades, gêneros, comportamentos e até padrões de voz distintos. Apesar da forma como o transtorno costuma ser retratado no cinema, a realidade clínica é bem diferente. Filmes como Clube da Luta (1999), Fragmentado (2016) e Vidro (2019) popularizaram versões dramáticas da condição, com personalidades violentas e mudanças abruptas. Na prática, porém, a apresentação mais frequente é a chamada forma não possessiva, em que as mudanças são discretas, internas e muitas vezes imperceptíveis para quem está ao redor.

“Existe uma personalidade que predomina sobre as outras, e há a possibilidade de a pessoa saber da existência de todos os fragmentos. É importante entender que o transtorno é uma forma que a pessoa encontrou para lidar com o trauma violento e prolongado sofrido na infância”, reforça Ana Beatriz.

Entre os sintomas mais comuns estão episódios de despersonalização, que são quando o indivíduo sente como se estivesse observando a própria vida de fora, alterações de identidade e lapsos de memória significativos. Em alguns casos, a pessoa relata perder horas inteiras sem conseguir lembrar o que fez durante esse período.

O diagnóstico do TDI é considerado um desafio. Isso porque seus sintomas podem ser confundidos com os de outros transtornos psiquiátricos e neurológicos, como esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline, epilepsia do lobo temporal e transtorno factício. Além disso, o subdiagnóstico é frequente, já que muitos pacientes sentem vergonha dos sintomas e fazem esforços para esconder suas experiências.

As evidências científicas mais recentes reforçam a forte relação entre o transtorno e traumas graves e repetidos na infância. Uma revisão publicada em 2025 na revista Frontiers in Psychiatry aponta que a maioria dos pacientes relata o início dos sintomas entre os 5 e os 8 anos de idade.

Outro estudo, publicado em 2025 na revista Psychiatry Research com participantes da Holanda e da Suíça, mostrou que pessoas com TDI apresentam níveis significativamente mais elevados de sintomas dissociativos, depressão, ansiedade, experiências traumáticas e distúrbios do sono em comparação com indivíduos sem o transtorno.

Nos últimos anos, pesquisadores também passaram a investigar de forma mais aprofundada como funciona a relação entre as diferentes identidades. A revisão da Frontiers in Psychiatry sugere que parte da amnésia dissociativa pode estar associada não apenas à fragmentação da memória, mas também a crenças distorcidas sobre trauma, identidade e funcionamento da própria memória, uma perspectiva que vem influenciando novas abordagens terapêuticas.

O Transtorno Dissociativo de Identidade não possui uma cura definitiva conhecida, mas tem tratamento. A principal abordagem é a psicoterapia de longo prazo, cujo objetivo é integrar as experiências traumáticas, reduzir os episódios dissociativos e melhorar a qualidade de vida do paciente. Medicamentos podem ser utilizados para tratar sintomas associados, como ansiedade, depressão e insônia, mas não atuam diretamente sobre o TDI. Diretrizes da International Society for the Study of Trauma and Dissociation (ISSTD) e informações do Manual MSD destacam que, com acompanhamento especializado e tratamento contínuo, muitas pessoas conseguem reduzir significativamente os sintomas e alcançar melhor funcionamento social e emocional.

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