Vivemos a Pós-Privacidade

A Constituição de 1988 consagrou inúmeros valores conflitantes.
A leitura atenta e a reflexão em torno ao conteúdo do artigo 5º servem para auxiliar qualquer pretensa análise do que é o Brasil.
Como compatibilizar liberdade & ordem, propriedade e função social, publicidade & privacidade?
Este último tema suscita indagações até o momento não respondidas.
Os indivíduos querem mesmo proteger sua intimidade, “o direito de estar só”? Têm inequívoco direito ao esquecimento?
A queda de braço entre publicidade e sua irmã republicana a transparência, com a intimidade ou privacidade, mostrou que as primeiras levaram a melhor.
De início, o exibicionismo que é uma das faces do consumismo inconsequente, ditadura do capitalismo selvagem, põe na lona a privacidade. São as pessoas mesmas que fazem questão de divulgar pelas redes sociais cada passo e cada experiência.
A idolatria pelo self ganhou asas supersônicas ante o advento das redes sociais.
Como pretender reserva, discrição e comedimento se a cada minuto a minha imagem e aquilo que estou fazendo ganha o potencial de infinitos acessos e quase nunca é recuperável, desde que atingiu a nuvem?
A pretexto de oferecer esse conforto impensável há algumas décadas, de fazer com que sua imagem e sua voz, seus movimentos e suas emoções cheguem a um destinatário em qualquer parte do planeta, as grandes empresas controla-doras do mundo se apropriam dos dados pessoais.
Dados que são fornecidos pelos próprios usuários. Não são forçados a isso. De certa forma, fazem um contrato com Google e Facebook.
Os benefícios e facilidades propiciados por essas empresas compensam que eles saibam a nosso respeito, mais do que nós mesmos.
A tendência da era contemporânea não é a meditação, a autoanálise, a reflexão, o “conhece-te a ti mesmo”. Reclama-se ação, protagonismo, fruição ao máximo das emoções e das sensações.
Nesse caminho, vamos fornecendo aos detentores do real poder no Século XXI – a informação e o conhecimento os dados que singularizam nosso perfil.
O Brasil é um campo extremamente propício a incursões antropológicas.
País de iletrados, de escassa leitura, de educação cada vez mais deficiente, da mediocridade conseguindo ultimar cursos universitários e atingir a pós-graduação com analfabetos funcionais, as redes sociais constituem o eixo de concentração das informações.
Tudo muito rápido, até instantâneo, e muito superficial. Acrescentem-se as fake News. A versão mais relevante do que o fato.
E aí, o mundo web passa a ser o desaguadouro das aspirações, desejos e delírios da massa.
Isso restou evidenciado nas eleições de 2018, assim como já ocorrera nos Estados Unidos com o advento da era Trump.
Com a educação claudicante, o apelo ao emocional em lugar do racional, a superficialidade das relações, a satisfação que se atinge mediante foco exclusivo nos sentidos, é muito remota a possibilidade de se proteger intimidade ou privacidade. São valores retóricos e suscetíveis de fundamentação. Mas relegados pela sociedade instintiva em que estamos mergulhados.
Não enxergo perspectivas de se voltar à era da ascese, da reserva, da prudência, do “sacrário das intimidades” que ainda reside na arqueologia do pensamento conservador.
Varrido pelo vendaval dos novos tempos, nada obstante a fixação em temas de costumes e de uma moral que se viu banida pelo egoísmo insensível, patologia de que padece toda a humanidade.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019/2020.

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