O ano novo e o autoperdão à luz da psicanálise

Walter Martins de Oliveira, Psicanalista e Doutor em Educação

 

O autoperdão é uma ferramenta essencial para uma vida emocional mais integrada, e o início de um novo ano é um momento propício para aprofundar esse movimento, desobstruindo o caminho emocional, retirando os pesos do passado que dificultam essa conquista. O autoperdão, segundo a literatura psicanalítica, é o ato de perdoar a si mesmo, ou seja, de se aceitar a si mesmo e se libertar das culpas e dos ressentimentos que se tem em relação às próprias ações e omissões; é sempre um processo e, como tal, é profundamente desafiador, porém, seguramente trará benefícios para a saúde mental, sobretudo no que tange à autoestima equilibrada e a autoaceitação. Perdoar a si mesmo implica aprender a amar a si mesmo e a se aceitar, o que não significa abandonar a autocrítica. O amor se alicerça na materialização da autoaceitação; amor e autoperdão são sinônimos. Autoperdão simboliza o morrer para o hábito de se manter encolhido, indigno, envergonhado e culpado. O autoperdão é a concretização do grande e novo nascimento. A cultura judaico-cristã incutiu-nos que nascemos como pecadores, culpados de tudo até prova em contrário. Aponta muito mais para o controle, dominação, medo, dívida e culpa do que para a liberdade, autocompreensão e espiritualidade. Está muito mais para os doutores da Igreja (Agostinho de Hipona, Jerônimo e Ambrósio – século IV d. C.), do que para Jesus de Nazaré, o Cristo. A culpa só servirá como sinal para prestar atenção e evitar irresponsabilidades. Para estabelecer limites e guiar a consciência. Para acionar o código moral internalizado, uma vez que somos animais sociais, o que significa que nenhum indivíduo humano poderá ser feliz sozinho, segundo o filósofo grego, Aristóteles (século IV a. C.). Neste sentido, somente não se sente culpado o psicopata. Pode-se perguntar, oportunamente, por exemplo, como se sentir culpado por ter se divorciado, mesmo sabendo que foi a escolha mais honesta e amorosa para aquela situação, para aquele momento da vida? Ou, o pobre se sentindo culpado pela sua pobreza. Autoperdão consiste em livrar-se desses padrões culturais arbitrários. Sentir culpa por escolhas que fez há muito tempo, trata-se de culpa doentia, patológica. Neste caso, por consequência, o “Eu” roubou de si mesmo o presente, prendeu-se no passado e está assombrado com o futuro. Sedimentou-se no ressentimento e a autoestima equilibrada desapareceu. O dominado pela culpa não sente compaixão de si mesmo. Não praticar o autoperdão é continuar preso nas garras ferozes do “Eu-culpado”, da tirania interna, o que pressionará a culpa a se manifestar de alguma forma. A conformação mais comum é a criação de uma personalidade “culpada” inconscientemente, que exigirá autopunição sem cessar (como quem afirma: “não mereço ser feliz”), resultando em depressão, sentimento de indignidade, inferioridade, dívida e males psíquicos e físicos. A culpa age dentro e fora do indivíduo “culpado”: para fora se expressa na forma de ressentimento, raiva e ódio para com outrem. Engendra-se uma visão estática do mundo, da vida, das pessoas (“nada muda!”); como se a vida neste mundo fosse unicamente hostil, injusta e apenas de sofrimentos. O autoperdão não significa aceitar e aprovar comportamentos tóxicos a si ou a quem quer que seja. Sentir remorso é inevitável pelo erro que se cometeu contra alguém. Mas, para quem quer se libertar e ser feliz, a contrição (o remorso) não pode ser definitiva. Para Casarjian (2000), uma criança maltratada que cresceu num lar problemático, levou vida afora responsabilidades por coisas que ela não poderia ser responsável e se viu envolta na impotência, vergonha e culpas decorrentes. Portanto, é necessário libertar-se de todo passado construído à sobra das experiências de medo, desvalor, vergonha e culpa. É essencial desmontar o sistema de pensamento que sustenta a auto-rejeição e ter confiança em poder escolher a autoaceitação e o autoamor.

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