O Natal de Jesus e a Psicanálise: um novo recomeço possível

Walter Martins de Oliveira – Psicanalista e Doutor em Educação

 

O Natal de Jesus, para a imensa maioria do povo brasileiro – o Brasil, em número absoluto de fiéis, é o segundo maior país cristão do mundo e o primeiro em número de católicos do planeta – representa a chegada do Filho de Deus que vem salvar a humanidade, trazendo luz, esperança, compromisso, amor e união familiar. Há os que ainda são conduzidos pela tradição: a criança na manjedoura, Maria e José, a estrela guia, os reis magos, o presépio, as luzes, o encontro festivo entre os familiares e a celebração religiosa. Trata-se de um tempo que, muito fortemente, desperta nas pessoas a memória emocional que remete à infância, a momentos fortes (positivos e até negativos) vividos (ou desejados), mesmo durante o curso da vida adulta. É um tempo que, de modo individual e coletivo, cuida de revelar algo fundamental a partir do âmago do ser humano: a necessidade de ser acolhido, reconhecido, cuidado e amado, incondicionalmente. Mas, à luz da Psicanálise, para além do contexto religioso e segundo Chopra, Ford e Williamson (2010), o Natal de Jesus também oferece uma oportunidade para que o indivíduo olhe para si num exercício de autocrítica, de superarão de seu falso self (self: essência única da personalidade), aquela máscara construída para sobreviver, as vergonhas não resolvidas, raivas acumuladas há anos e sentimento de solidão ocultado, disfarçado pelo excesso de bebida alcoólica, sedativos, fascínio insaciável por pornografia, discriminação de gênero, aporofobia, homofobia e tantos outros meios de se expressar aspectos reprimidos, recalcados. Em Psicanálise, todo nascimento é mais do que um acontecimento biológico: é um evento simbólico, carregado de desejos, expectativas e sentidos que ultrapassam o indivíduo. O nascimento de Jesus (uma Luz que surge no meio da noite), pode ser entendido como um símbolo de esperança que se renova, da possibilidade de começar de novo desde o “fundo do poço” dos fracassos humanos. Portanto, antes de, nessa Festa, buscar o outro/outra, tenha empatia por si mesmo. A manjedoura, de certo modo, representa a precariedade humana, porém, mesmo assim, dela emerge o Evento Transformador. A Psicanálise também nos lembra que, ao lado da esperança, a festa natalina pode trazer sentimentos difíceis: faltas, ausências, projetos de vida fracassados, desencontros, perdas, tensões familiares e solidões que se intensificam justamente quando toca aquela “musiquinha” na TV (e todos sabem qual), os anúncios, as luzes nas casas, as novenas de Natal, a arrumação do presépio e os enfeites que prometem felicidade plena. Esse contraste, que tantas pessoas vivenciam, não significa uma mera derrota pessoal. Faz parte das sombras coletivas, uma sociedade que em seu Modo de Produção impõe o mercado como alicerce das relações humanas. As atividades econômicas se converteram na principal preocupação do ser humano moderno. De acordo com Fromm (1963), significa dizer que uma rosa não é qualificada pela sua beleza, mas como mercadoria (seu valor de câmbio). Ao mesmo tempo, o relato do nascimento de Jesus remete à promessa da chegada de uma nova chance para a humanidade.

A história do Natal revela a potência do encontro humano. Por fim, o Natal de Jesus é menos sobre presentes materiais e mais sobre presença psíquica: estar inteiro/inteira no que se vive consigo, com os outros/outras e com o mundo.

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