Luciano Bernardo de Almeida, @LucianoBaixinho
Em uma terra distante, mas de práticas tristemente familiares, chamada Reino de Trampolim da Serra, a administração pública parece ter descoberto uma nova lei da física: a “elasticidade orçamentária por conveniência”. Por lá, o Cadastro Reserva dos concursos públicos não é visto como um banco de talentos para suprir as necessidades reais do povo, mas sim como uma extensão da árvore genealógica de quem manda, uma lista de convidados para um banquete pago com o suor dos súditos.
Imagine a cena: os serviços estão operando normalmente, sem vagas abertas e sem clamor por novos servos. Mas, por um “milagre” estatístico, descobre-se que o afilhado de um conselheiro, o primo de uma influente dama das finanças ou aquele parente que compartilha o mesmo sobrenome ilustre da corte ficou classificado em uma posição distante, como o 7º ou o 10º lugar. Como as leis do reino exigem que se respeite a ordem de classificação, a solução em Trampolim da Serra é de uma “generosidade” sem limites: convoca-se todo mundo! Afinal, para o Reino, o mérito de um parente é tão grande que justifica contratar outros nove desconhecidos apenas para que o “sangue real” chegue ao cargo.
O conselho de ouro para quem pretende prestar concurso nesse reino é um só: não perca seu tempo tentando ser o melhor ou o primeiro colocado. Isso exige estudo demais e esforço desnecessário. Se a prova estiver difícil, use uma estratégia muito mais inteligente: descubra quem são os protegidos que possuem laços de consanguinidade no castelo. Se o “escolhido da família” ficar em décimo, o seu bilhete premiado é estar em nono. Você será convocado “por tabela”, servindo apenas de degrau para pavimentar o caminho de quem realmente detém o prestígio do sobrenome. Mas o surrealismo no Reino de Trampolim da Serra não para por aí. Existe a figura do “servidor mutante”. O sujeito presta concurso para uma área técnica específica, mas, mal assume o posto, é arremessado para uma secretaria completamente diferente, onde a necessidade política atropela qualquer critério. É um xadrez onde as peças se movem sozinhas, criando desvios de função que incham a folha de pagamento sem melhorar um milímetro o serviço prestado. Dizem as más línguas que houve até o caso folclórico de um cocheiro contratado às pressas para uma secretaria onde não havia sequer uma carruagem disponível para ele conduzir. É de se duvidar, inclusive, que o soberano deste reino saiba de tudo o que se passa nos porões de suas secretarias. Afinal, um Rei precisa pensar no macro, nas grandes obras e no futuro da coroa, sendo obrigado a confiar que seus gestores cuidem do micro com ética e sem favorecer os seus. O problema é quando essa confiança é usada para transformar a máquina pública em um trampolim para o nepotismo e para aliados.
Certamente, se algum súbito ou nobre se sentir incomodado com este relato e tentar refutá-lo, terá a difícil tarefa de provar que as “coincidências” entre este reino imaginário e o mundo real são meras obras do acaso. Afinal, quem tenta calar a crônica acaba confessando que a realidade é o espelho do texto. A ética deveria ser o alicerce de qualquer governo. Menos privilégios e mais eficiência é o mínimo que se espera. Porém, ao terminar este relato, sinto um profundo alívio. Afinal, vivemos em um mundo de instituições sólidas e gestão impecável. Ainda bem que tudo isso não passa de uma história de ficção de um reino que só existe no papel, pois seria um verdadeiro absurdo se algo tão vergonhoso acontecesse no mundo real.









