Ribeirão Grande na Revolução de 1932: Uma história de fé

Por Afonso Gabriel Xitão e Rafael Ferreira de Almeida

 

Os moradores de Ribeirão Grande preservam, de geração em geração, uma marcante lembrança da história local: a fuga das famílias que viviam na área central do então povoado para os bairros rurais de Urucuva, Freguesia Velha e Encanados, em busca de refúgio e segurança diante da guerra civil que atingiu a região.

Em meados de julho de 1932, soldados paulistas ocuparam pacificamente o então bairro de Ribeirão Grande e alertaram a população para que deixasse o local, pois havia grande possibilidade de confrontos armados. Atendendo ao aviso, os moradores partiram em direção ao sertão.

Povo profundamente marcado pela fé cristã e acostumado às longas caminhadas em romarias, os ribeirão-grandenses buscaram abrigo na Caverna do Sumidouro, na “Casa de Pedra” e, provavelmente, também na “Gruta da Naia”. Levaram consigo poucas mudas de roupa, galinhas, ovos e alguns animais de criação. Com grande sacrifício, abandonaram suas casas, plantações e hortas para preservar a própria vida.

O refúgio não durou apenas alguns dias. Durante cerca de três meses, a guerra assolou a região, e os moradores permaneceram escondidos em diferentes locais, vivendo em condições extremamente difíceis.

O antigo morador Joaquim Honório relatava que, durante esse período de incertezas, as famílias se reuniam diariamente para rezar, pedindo ao Bom Jesus que os protegesse e os livrasse dos horrores da guerra.

No final de agosto de 1932, com o avanço das tropas federais comandadas por Getúlio Vargas, que já haviam ocupado a cidade de Guapiara, as forças constitucionalistas posicionadas em Ribeirão Grande e nos bairros vizinhos — Pinhalzinho, Cordeiros, Cândidos e Ana Benta — recuaram para a cidade de Capão Bonito.

No início de setembro de 1932, quando as tropas federais chegaram a Ribeirão Grande, dispararam contra as primeiras casas que avistaram, como medida de ocupação do território e prevenção contra possíveis emboscadas. Vindos de Guapiara, os soldados avançavam com o objetivo de conquistar Ribeirão Grande e, posteriormente, Capão Bonito, consolidando a derrota do movimento constitucionalista na região.

Joaquim Honório também contava que, em meados de outubro de 1932, após serem avisados por um mensageiro de que a guerra havia terminado, os moradores regressaram às suas casas. Ao retornarem, encontraram diversas construções marcadas por perfurações de balas, testemunhos silenciosos dos combates.

Entre as histórias mais lembradas está a da imagem do Senhor Bom Jesus, trazida de Iguape, que permanecia na residência de Francisco Nunes. Segundo a tradição oral, quando a guerra terminou, a imagem foi encontrada exatamente no mesmo lugar onde havia sido deixada, sobre a mesa da cozinha, permanecendo intacta, apesar de a casa ter sido atingida por disparos.

Em sinal de gratidão pela proteção recebida, os moradores ergueram uma pequena capela dedicada ao Bom Jesus no local onde hoje se encontra o centro da cidade. Anos mais tarde, essa capela deu lugar à igreja que continua sendo um dos principais símbolos da fé e da identidade histórica de Ribeirão Grande.

Assim, a memória da Revolução Constitucionalista de 1932 em Ribeirão Grande não se resume aos episódios militares. Ela permanece viva nas lembranças das famílias, na tradição oral e na devoção ao Bom Jesus, compondo um patrimônio histórico e cultural que atravessa gerações e reforça a identidade do povo ribeirão-grandense.

Veja também