Quando se fala nos efeitos do uso excessivo de celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos, a preocupação costuma estar voltada para a saúde mental. No entanto, pesquisas recentes mostram que o tempo prolongado diante das telas também pode provocar mudanças físicas, afetando o pescoço, a visão, a força muscular e até a capacidade motora.
Se você está lendo este texto pelo celular, há uma grande chance de estar com a cabeça inclinada para baixo. Essa posição, conhecida como postura da cabeça projetada para frente, aumenta significativamente a pressão sobre a região cervical, podendo chegar a cerca de 27 quilos.
Com o passar do tempo, esse hábito pode comprometer os discos da coluna, desgastar articulações, enfraquecer músculos e até reduzir a capacidade pulmonar. O problema ganhou um nome específico: pescoço tecnológico, condição que, em alguns casos, pode modificar de forma permanente a postura corporal.
Especialistas destacam que exercícios orientados por profissionais de saúde podem ajudar na recuperação, mas pequenas mudanças na rotina também fazem diferença. Uma delas é elevar o celular até a altura dos olhos, mantendo o aparelho, de preferência, a uma distância equivalente ao comprimento do braço. A mesma recomendação vale para telas de computadores.
Em entrevista concedida ao jornalista da BBC News Thomas Germain, especialistas ressaltaram que fazer pausas durante o uso de dispositivos eletrônicos também é importante. A orientação é interromper o tempo de tela por cerca de 20 minutos a cada 30 minutos de uso contínuo.
O uso frequente da tecnologia também pode influenciar o desenvolvimento das habilidades motoras, principalmente as mais delicadas, que envolvem precisão e coordenação. De acordo com o psicólogo Sebastian Suggate, da Universidade de Regensburg (Alemanha), embora as telas favoreçam movimentos como tocar e deslizar, elas podem estar relacionadas à redução da coordenação motora fina, especialmente em crianças. Estudos do pesquisador ainda indicam que essa perda pode afetar o desempenho cognitivo e escolar. Em vez de eliminar o uso das telas, Suggate recomenda equilibrá-las com atividades manuais, como cozinhar, escrever à mão, tocar um instrumento ou praticar artesanato. Para ele, os impactos individuais costumam ser pequenos, mas, em longo prazo, podem gerar consequências mais amplas para a sociedade.
Outro tema que desperta preocupação é o aumento expressivo dos casos de miopia observado nas últimas décadas. Diante da popularização das telas, muita gente acredita que os celulares sejam os principais responsáveis pelo problema.
Entretanto, segundo o professor de optometria Donald Mutti, da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, a questão é mais complexa.
Mutti explica que um estudo longitudinal, realizado ao longo de mais de 20 anos, acompanhou o desenvolvimento da visão de crianças para identificar fatores associados ao surgimento e à progressão da miopia.
Entre as hipóteses avaliadas estava a influência do chamado “trabalho de perto”, como ler ou utilizar o celular a poucos centímetros do rosto. Os resultados, porém, mostraram que essa relação não é tão direta quanto se imaginava.
O estudo apontou que um fator de proteção importante é o tempo passado ao ar livre. Segundo o pesquisador, a exposição à luz natural estimula a liberação de dopamina na retina, processo que parece desempenhar papel relevante no desenvolvimento saudável dos olhos.
Na avaliação de Mutti, a tecnologia influencia a saúde ocular de forma indireta, pois incentiva uma rotina mais restrita aos ambientes internos e reduz o contato com a luz natural.
A recomendação, portanto, é simples: passar mais tempo ao ar livre. Além de contribuir para a saúde dos olhos, esse hábito também favorece uma melhor qualidade do sono. Para isso, é importante utilizar protetor solar e óculos escuros sempre que houver exposição prolongada ao sol.









