Estamos criando crianças sem limites? O que dizem os especialistas

Em uma época em que a parentalidade valoriza o diálogo e o acolhimento emocional, especialistas discutem até que ponto a dificuldade em impor limites pode afetar o desenvolvimento das crianças. Afinal, existe uma geração mais mimada ou uma nova forma de educar? Onde está a diferença entre uma criação acolhedora e uma criação permissiva?
Para a psicóloga perinatal e da parentalidade, Rubia Melo, hoje valorizamos muito mais o diálogo, o acolhimento emocional e a construção de vínculos seguros. “Felizmente, deixamos para trás a ideia de que educar é sinônimo de medo, punição ou obediência cega”.
No entanto, esse movimento também trouxe um novo desafio: como acolher sem ser permissivo? “Gosto de fazer uma analogia com um rio. Um rio precisa de margens. São elas que direcionam seu percurso, oferecendo segurança e organização. Ao mesmo tempo, o rio continua sendo livre para correr, contornar obstáculos e seguir seu fluxo. Se não existem margens, a água transborda, invade cidades e causa destruição. Na educação acontece algo semelhante. A criança é esse rio: cheia de energia, curiosidade, emoções e desejos. Os pais e cuidadores representam as margens, oferecendo direção, proteção e limites para que esse desenvolvimento aconteça de forma saudável”, explicou a psicóloga.
Segundo Rubia Melo, limites não são barreiras que impedem o crescimento, mas referências que ajudam a criança a compreender o mundo, lidar com frustrações, desenvolver autocontrole e construir relações respeitosas. “Uma criação acolhedora não elimina os limites; ela apenas muda a forma como eles são apresentados. Em vez da imposição pelo medo, os limites passam a ser estabelecidos com firmeza, respeito e coerência. É importante lembrar que punição não educa; ela apenas interrompe um comportamento naquele momento. Quando a criança obedece por medo, ela não necessariamente compreende o motivo daquele limite”, destacou.
Uma educação baseada na punição pode contribuir para que a criança cresça insegura, com receio de errar, excessivamente preocupada em agradar ou com dificuldades para confiar em si mesma e nas próprias capacidades. A especialista esclarece que, educar é muito mais do que fazer a criança obedecer; é ajudá-la a compreender, refletir e desenvolver recursos internos para fazer boas escolhas. “É justamente aí que encontramos a diferença entre uma parentalidade acolhedora e uma parentalidade permissiva. Na criação acolhedora, o adulto valida os sentimentos da criança, mas não permite que esses sentimentos determinem todas as decisões”.
Quando os pais dizem: “Eu entendo que você ficou bravo porque queria continuar brincando, mas agora é hora de ir embora.” O afeto permanece, mas o limite também. “Já na permissividade, muitas vezes o adulto evita dizer “não” por receio de frustrar a criança, acaba cedendo constantemente e transfere para ela um poder de decisão que ainda não é compatível com seu desenvolvimento”, reforçou a profissional.
De acordo com a psicóloga, é necessário compreender que a parentalidade não começa quando um filho nasce, começa na nossa própria infância. “É observando nossos pais ou responsáveis que aprendemos, consciente e inconscientemente, o que significa cuidar, amar, disciplinar, acolher e resolver conflitos. Esses modelos ficam registrados em nós e influenciam profundamente a maneira como exercemos a maternidade e a paternidade. Por isso, mudar a forma de educar não é uma tarefa simples”.
A profissional ressalta que, muitas vezes reproduzimos comportamentos que vivenciamos, mesmo quando eles nos fizeram sofrer. Em outros momentos, fazemos o movimento oposto: tentamos oferecer aos nossos filhos tudo aquilo que sentimos que nos faltou e, sem perceber, podemos ter dificuldade em estabelecer limites por associá-los às experiências negativas que tivemos. “Ambos os movimentos são compreensíveis e fazem parte da nossa história. Mais do que criar uma geração “mimada” ou “forte”, o desafio da parentalidade contemporânea é encontrar equilíbrio. Crianças precisam ser vistas, ouvidas e acolhidas emocionalmente, mas também precisam de adultos que sustentem os limites com segurança. O acolhimento e a firmeza não são opostos; eles caminham juntos. É justamente nessa combinação que as crianças encontram o ambiente necessário para desenvolver autonomia, responsabilidade, segurança emocional e a capacidade de conviver em sociedade”, finalizou.

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