O Brasil vive uma escalada nos casos de adoecimento emocional ligados ao trabalho. Apenas em 2025, mais de 546 mil afastamentos foram concedidos por transtornos mentais, como ansiedade e depressão, segundo dados da Instituto Nacional do Seguro Social, um crescimento contínuo que coloca o tema no centro das discussões sobre saúde pública e relações de trabalho.
Entre 2022 e 2024, os benefícios concedidos por problemas de saúde mental saltaram de cerca de 201 mil para 472 mil, um aumento de 134% em apenas dois anos. Especialistas apontam que esse crescimento reflete tanto o aumento real dos casos quanto uma maior conscientização e diagnóstico. A Organização Mundial da Saúde estima que transtornos como ansiedade e depressão já estão entre as principais causas de incapacidade no mundo, afetando mais de 300 milhões de pessoas globalmente.
A Síndrome de Burnout, caracterizada pelo esgotamento extremo, muitas vezes relacionado ao trabalho, também preocupa. Desde 2022, a condição passou a ser oficialmente reconhecida como fenômeno ocupacional pela OMS na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), reforçando sua ligação direta com o ambiente profissional e suas exigências.
Nesse cenário, especialistas alertam que, o adoecimento emocional deixou de ser uma questão individual e passou a representar um desafio coletivo, com impactos diretos na produtividade, na economia e na qualidade de vida da população. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, problemas de saúde mental no ambiente de trabalho geram perdas econômicas globais estimadas em trilhões de dólares todos os anos, principalmente devido à queda de produtividade e ao absenteísmo.
No Brasil, fatores como jornadas extensas, insegurança profissional, pressão por resultados e a dificuldade de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho contribuem para esse cenário. Estudos da Fundação Oswaldo Cruz durante e após a pandemia de COVID-19 também apontaram aumento significativo nos níveis de estresse, ansiedade e depressão entre trabalhadores brasileiros.
Sintomas como cansaço constante, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e desânimo frequente, quando persistentes, podem indicar que o organismo já está em estado de alerta. Ainda assim, muitos indivíduos demoram a procurar ajuda, seja por falta de informação, seja pela dificuldade em reconhecer o problema.
“Muitas pessoas sabem que não estão bem, mas não conseguem identificar o que estão sentindo ou como buscar apoio. Esse é um dos principais desafios hoje”, comenta a psicóloga Patrícia A. Guerra.
Segundo o médico Dr. Fábio Guerra, que atua na área de Cardiologia, mesmo com o avanço de políticas corporativas voltadas à saúde mental, inclusive com exigências legais mais recentes sobre a gestão de riscos psicossociais no trabalho — como as atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego — ainda existe uma lacuna importante no cuidado individual.
Especialistas reforçam, que o enfrentamento desse cenário exige ações integradas entre empresas, poder público e sociedade. Investir em ambientes de trabalho mais saudáveis, promover cultura organizacional acolhedora e incentivar o acesso a acompanhamento psicológico são medidas consideradas essenciais para conter o avanço do adoecimento emocional no país.









