O consumo frequente de bebidas muito quentes, como café, chá e chimarrão, especialmente quando ingeridas logo após o preparo, tem sido associado ao aumento do risco de câncer de esôfago, um tipo de tumor que, apesar de menos frequente, costuma ser diagnosticado em fases mais avançadas.
A relação está diretamente ligada à temperatura dos líquidos, principalmente quando acima de 65 °C, o que pode provocar microlesões repetidas na mucosa do esôfago ao longo do tempo. Esse processo inflamatório contínuo é considerado um fator de risco evitável para a doença, que tem estimativa de cerca de 8.750 novos casos por ano no Brasil no triênio 2026-2028.
O alerta chama atenção para um hábito cotidiano muitas vezes negligenciado: mais do que o tipo ou a quantidade da bebida, a forma de consumo, especialmente a temperatura, pode fazer diferença no risco ao longo dos anos.
O câncer de esôfago se desenvolve quando as células que revestem internamente o esôfago, canal que conecta a garganta ao estômago, sofrem alterações e começam a se multiplicar de forma desordenada. À medida que progride, o tumor pode se expandir para camadas mais profundas do órgão e até comprometer estruturas vizinhas.
“Embora seja menos falado, ele representa um desafio importante na oncologia. Avanços em terapias e estratégias de diagnóstico têm contribuído para oferecer alternativas mais eficazes de tratamento, mas a conscientização segue sendo essencial”, afirma Mauro Donadio, oncologista da Oncoclínicas.
Segundo o especialista, os dois tipos mais frequentes da doença são o adenocarcinoma (são frequentemente encontrados no terço inferior do esôfago- esôfago torácico inferior, e transição esôfago-gástrica) e o carcinoma de células escamosas(pode ocorrer em qualquer lugar ao longo do esôfago, mas é mais comum na região do pescoço -esôfago cervical e nos dois terços superiores da cavidade torácica – esôfago torácico superior e médio). Embora menos comuns, também podem surgir tumores como linfomas, melanomas e sarcomas na região esofágica, mas esses casos são considerados bastante raros.
A neoplasia pode evoluir de forma silenciosa nas fases iniciais, o que pode atrasar o diagnóstico. Às vezes os primeiros sinais que se manifestam podem ser inespecíficos e subvalorizados e isso pode explicar o achado de uma doença já está mais avançada ao diagnóstico. “Mas em muitos casos os pacientes relatam sensação de alimento parado na garganta ou no peito, dificuldade para engolir, dor ou queimação no tórax e uma perda de peso significativa e sem explicação”, afirma o especialista.
Outros sintomas possíveis do câncer do esôfago podem incluir: rouquidão, tosse persistente, vômitos e hemorragia digestiva. “Persistindo qualquer desconforto, é essencial buscar avaliação médica para investigar a causa. Embora esses sintomas não signifiquem necessariamente um câncer de esôfago, apenas um diagnóstico preciso pode indicar o melhor caminho a seguir e garantir que o paciente receba o tratamento mais apropriado”, orienta.
Como forma de prevenção, é fundamental evitar alguns hábitos que podem aumentar os riscos de desenvolvimento da doença. “O lado positivo é que essa é uma doença que pode, em muitos casos, ser evitada com mudanças simples no estilo de vida”, destaca. “Evitar o tabagismo, moderar o consumo de álcool, manter uma alimentação balanceada, praticar exercícios físicos e não ingerir líquidos excessivamente quentes são atitudes que reduzem significativamente o risco. Além disso, a vacinação contra o HPV é uma aliada importante, não só na prevenção do câncer de esôfago associado ao vírus, mas também de outros tipos, como o de colo do útero, ânus e cavidade oral”, finaliza o oncologista.









