CIPA Escolar e Psicanálise: é imperativo cuidar das pessoas

Walter Martins de Oliveira, Psicanalista e Doutor em Educação

 

Transtornos e adversidades como ansiedade, angústia, assédios moral e sexual, conflitos interpessoais e todo tipo de estresse têm sido recorrentes nos ambientes de trabalho em geral e, como não poderia ser diferente, nos escolares. A prevenção, portanto, não se limita aos acidentes físicos. É necessário cuidar também das relações humanas. Quando ouvimos falar em segurança no ambiente de trabalho ou escolar, em geral e, justamente, pensamos em equipamentos, sinalizações, extintores, saídas de emergência e normas de prevenção. Tudo isso é fundamental. A Norma Regulamentadora nº 5 (NR-05), do Ministério do Trabalho, estabelece a importância da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio (CIPA), cuja finalidade é promover a preservação da vida e da saúde dos estudantes, dos trabalhadores e trabalhadoras. A referida Norma Reguladora (NR), está para nos ajudar na desconstrução do senso comum e da visão ingênua, especialmente no que toca aos mais diversos ambientes de trabalho e até mesmo de esporte/lazer. Nem mesmo a fé (religiosa), o “colocar tudo nas mãos de Deus”, poderá justificar passividade e inconsequência. A espiritualidade não desobriga a ação humana do que necessita de prevenção. A Psicanálise oferece uma contribuição valiosa para essa reflexão. A criança que não foi e não está sendo interditada e educada a lidar com limites e frustrações, terá enormes dificuldades na escola, no trabalho e nos relacionamentos. O adulto que acredita que todos os seus desejos devem ser imediatamente atendidos e que tudo poderá fazer arbitrariamente, com frequência entra em conflito com a realidade e com as demais pessoas, não aceitando acatar as leis, os limites, as normas e as regras em quaisquer ambientes. Freud e seus reinventores, compreendem que o ser humano não é movido somente pela razão, mas igualmente pelos desejos, impulsos e tendências inconscientes que buscam satisfação imediata. Se cada indivíduo seguisse apenas seus impulsos, a convivência social se tornaria impossível. Singularidade e coletividade estão umbilicalmente imbricadas, entrelaçadas. Um dos pontos principais da vida humana está na capacidade em aprender a lidar com a falta, com a espera, com o “ainda não” e com os limites exigidos para que a vida familiar, comunitária, coletiva e social não se torne perigosa e patogênica. A CIPA Escolar não forma apenas agentes de prevenção; forma cidadãos e cidadãs! Paulo Freire (2011, p. 95), nos recorda que toda educação verdadeira (libertadora), começa quando o indivíduo percebe que não está sozinho no mundo: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens e mulheres se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Cuidar de si e cuidar do outro/outra são, afinal, duas faces da mesma responsabilidade; comprometimento afetivo e verdadeiro este que, conjuntamente, promove o outro/outra e impõe limites saudáveis para preservar espaços (físico e psíquico), em vista da construção de um ambiente de trabalho mais seguro e saudável para todos e todas; seguramente, a estrutura necessária para a instituição de um mundo melhor constitui-se nisto.

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