Positividade tóxica: Quando o “pensamento positivo” se torna um problema

Em tempos de redes sociais e “vibes only”, um fenômeno tem chamado a atenção de especialistas em saúde mental: a positividade tóxica. Embora o otimismo seja uma ferramenta valiosa para enfrentar os desafios da vida, ele pode se tornar nocivo quando usado como forma de ignorar emoções negativas ou silenciar o sofrimento.

A positividade tóxica ocorre quando há uma insistência em manter uma atitude positiva a qualquer custo, mesmo diante de situações dolorosas. Frases como “pense pelo lado bom”, “tudo acontece por uma razão” ou “não reclame, tem gente em situação pior” são exemplos comuns desse comportamento. Embora pareçam inofensivas, essas expressões podem invalidar sentimentos legítimos e dificultar o processo natural de lidar com frustrações, luto e traumas.

Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora dos best-sellers ‘Mentes Ansiosas’ e ‘Mentes Perigosas’, essa mentalidade está profundamente enraizada em uma cultura que valoriza a aparência de sucesso e felicidade constante. Em seu podcast PodPeople, a especialista faz um alerta: “Vivemos em uma sociedade de ostentação, onde vemos pessoas ostentarem alegria, bem-estar e até bens materiais, que muitas vezes não condizem com a realidade”.

Ana Beatriz faz referência ao clássico filme Matrix, relacionando a ideia da positividade tóxica à famosa metáfora das pílulas azul e vermelha. “Tomar a pílula azul é viver anestesiado, acreditando que seguir os padrões sociais de felicidade trará realização. A vermelha, por outro lado, representa o despertar para a verdade, inclusive para nossas dores”, afirma a psiquiatra.

Ela ressalta que não existe felicidade verdadeira sem lucidez e autoconhecimento. “Entender e trabalhar nossas dores é o que nos torna pessoas melhores. Fugir delas, apenas para manter a aparência de felicidade, nos distancia de quem realmente somos”.

O discurso da positividade tóxica ganha ainda mais relevância diante do aumento dos índices de transtornos mentais. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que os casos de depressão aumentaram mais de 25% globalmente após a pandemia de COVID-19. No Brasil, o cenário também é alarmante: segundo o Ministério da Saúde, os casos de suicídio entre jovens têm crescido nos últimos anos, sendo uma das principais causas de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

Para Ana Beatriz, esse cenário está diretamente ligado à negação do sofrimento. “O sofrimento humano não é sinal de fracasso. Ele é um processo natural, necessário. É na tristeza que nos recolhemos, refletimos e reconhecemos nossos reais valores. A positividade tóxica virou um bordão: você tem que ser assim, aparentar aquilo, sorrir o tempo todo – e isso é insustentável.”

A imposição de estar sempre bem pode fazer com que pessoas reprimam sentimentos legítimos, levando ao isolamento, à vergonha e até ao adoecimento emocional. Ouvir frases como “não pense assim” ou “não chore por isso” pode fazer com que alguém se sinta culpado por estar triste, ao invés de acolhido.

Psicólogos reforçam que todas as emoções são válidas e têm um papel importante na vida emocional humana. “É preciso dar espaço para sentir. Sentir raiva, tristeza, medo e frustração é parte da nossa humanidade. Reprimir essas emoções em nome de um ideal de felicidade constante é o que realmente adoece”, diz Ana Beatriz.

E como combater a positividade tóxica? A primeira medida é a autocompaixão, reconhecer que está tudo bem não estar bem. Buscar ajuda profissional também é fundamental, especialmente quando sentimentos negativos se tornam persistentes ou intensos demais. “Felicidade não é ausência de dor. É a capacidade de reconhecer, acolher e aprender com ela”, conclui Ana Beatriz.

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