Maria Goretti da Silva, Psicóloga – CRP 06/149116
SerMentes – Reflexões sobre saúde mental
Em meio ao fluxo automático da rotina, frequentemente seguimos vivendo sem notar o que acontece em nosso mundo interno. É nessa pausa para a observação que a saúde mental ganha voz
Você já se pegou sentindo culpa por simplesmente não estar fazendo nada?
Finalmente surge aquele momento livre, sem compromissos ou urgências na agenda. Seria a oportunidade perfeita para repousar, ler um livro, conversar sem pressa ou desfrutar do silêncio. No entanto, em vez de tranquilidade, surge um desconforto interno: a incômoda sensação de que você deveria estar produzindo algo.
Nesse instante, a mente começa a listar pendências, antecipar as demandas da semana seguinte e resgatar tarefas acumuladas. De repente, o ato de descansar passa a ser percebido como “perda de tempo”.
Quando fazer se torna mais importante do que ser
Fomos educados em uma cultura que supervaloriza a ocupação contínua e a capacidade de suportar sobrecargas. O esforço e a dedicação são qualidades valiosas, mas o risco surge quando condicionamos nosso valor pessoal exclusivamente ao volume do que conseguimos entregar.
Aos poucos, uma cobrança silenciosa se instala: a de que precisamos produzir, resolver, servir e corresponder sem interrupções. Quando paramos, a sensação imediata é a de estar falhando com alguma obrigação.
É como se o descanso só fosse legítimo se fosse previamente merecido.
O que existe por trás dessa culpa?
A dificuldade de pausar costuma estar enraizada em crenças profundas que construímos sobre nós mesmos. Esse padrão pode se manifestar de diferentes formas:
- A busca por validação: Acreditar que a utilidade e a disponibilidade constante são as únicas formas de obter reconhecimento;
- A confusão sobre limites: Interpretar o ato de dizer “não” ou colocar pausas como sinal de egoísmo ou irresponsabilidade;
- A ocupação como esquiva: Usar a rotina acelerada como um mecanismo para evitar o contato com preocupações, angústias e sentimentos difíceis.
Nesses cenários, manter-se ocupado deixa de ser uma mera exigência da rotina e torna-se um escudo protetor ou uma cobrança interna inflexível. Existe, contudo, uma fronteira nítida entre exercer a responsabilidade e viver sob a ilusão de que nunca fazemos o suficiente.
Aprender a descansar também é aprender a se respeitar
Descansar não significa abandonar responsabilidades. Significa reconhecer que temos limites e necessidades que merecem atenção.
Nosso valor não diminui quando fazemos uma pausa. Não precisamos estar constantemente produzindo para merecer respeito, reconhecimento ou cuidado.
Aprender a descansar sem culpa pode exigir mudanças na maneira como pensamos sobre produtividade, merecimento e autoestima.
É um exercício de autoconhecimento: perceber o que nos leva a exigir tanto de nós mesmos e compreender que uma vida saudável também precisa de momentos em que simplesmente podemos estar presentes, sem a obrigação de realizar alguma coisa.
Talvez o verdadeiro desafio não seja encontrar tempo para descansar, mas permitir que esse tempo exista sem transformá-lo em mais uma cobrança.
Afinal, somos muito mais do que nossas tarefas, nossos resultados e nossas responsabilidades.
Cuidar da saúde mental começa, muitas vezes, com uma pergunta simples:
Quando foi a última vez que você se permitiu descansar sem sentir que precisava merecer esse descanso?









