Walter Martins de Oliveira, Psicanalista e Doutor em Educação
O Dia das Mães ainda continua sendo intensamente celebrado; as mães têm o seu dia, todo o segundo domingo do mês de maio. A data foi oficializada no Brasil em 1932. Porém, não foi uma criação brasileira, mas uma importação dos Estados Unidos. Os gregos antigos, de certo modo, já o faziam, pois celebravam as divindades maternas, a exemplo de Reia (deusa da maternidade, fertilidade e conforto), Gaia (mãe-terra) e Deméter (deusa da agricultura). É sabido que o bebê ao nascer é totalmente frágil, sem unidade psíquica, sem consciência de si, dependente em tudo do outro/outra para sobreviver, tanto no plano físico quanto psíquico. Para a Psicanálise o desejo da mãe ao se materializar em gestos, olhares e palavras, oferece-lhe um lugar de acolhimento, reconhecimento e segurança para que, de um não-sujeito, constitua-se sujeito a partir dela. O bebê só pode existir porque ela, a mãe ou quem exerce tal função, o sustenta nesse lugar central. E porque necessita crescer tal qual um passarinho que ficou pronto em seu ninho e precisa voar, a criança também precisa adentrar-se no processo de independência, a ponto de a mãe não lhe ser mais necessária. Para Fromm (1963), isso parece um paradoxo, ou seja, o amor de mãe tem o propósito de ajudar o bebê a crescer, emancipar-se, e afastar-se dela. O amor de mãe, inicia-se na absoluta união com a criança, porém em direção à separação. Khalil Gibran, em seu poema, corrobora tudo isso: “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. …Vós sós os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. Embora vivam convosco não vos pertencem”. Para Winnicott, famoso pediatra e psicanalista inglês, do século XX, a mãe suficientemente boa, por amor à criança, permitirá que seu rebento siga seu caminho, como o filhote de passarinho que, compulsoriamente, necessita empreender seu primeiro voo. Porém, ainda é no desejar que o filho/filha vá, que a maioria das mães falha. Crescer significa, inexoravelmente, estar além da abrangência protetora da mãe. Obviamente, ela continuará amando aquela “criança” que seguiu por si mesma, responsabilizando-se por si e por outros. Seguramente, é fácil a qualquer mãe amar seu filho/filha, difícil é deixá-lo seguir. Há duas vozes a considerar: a que manda a criança a amar e perdoar tanto aos outros quanto a ela mesma (função de mãe), e outra voz que a ordena cumprir a lei, o seu dever, a sua tarefa, a sua responsabilidade (função de pai). Hoje muito se fala de como o pai tem perdido seu “status”, sua função de pai dentro da família. Para Freud, o “pai” não é apenas o genitor biológico. Se a mãe é quem acolhe, cuida e sustenta o bebê nos primeiros momentos da vida, é o pai (ou quem ocupa essa função) que impõe o limite, o corte, a interdição. Isso permite à criança encontrar um espaço para desenvolver sua própria identidade, seu desejo, sua autonomia e lançar-se em sua adultice como sujeito de sua própria história. Portanto, ao depararmo-nos com sujeitos (homens e mulheres) muito dependentes da aprovação externa, obcecados por reconhecimento em redes sociais, fracos emocionais, inseguros quanto ao seu valor, com dificuldade de lidar com frustrações e de assumir responsabilidades, seria injusto atribuir tudo isso somente à função de mãe, pois a sociedade vive tempos difíceis no que tange à função de pai.









